Convívio saudável é estar com quem você percebe que percebe você

30/12/2012 – Só existe quem é percebido

Ela estava lá há seis dias. Casa de parentes em uma cidade distante. Foi muito bem recebida, bem tratada. Recebendo carinho e atenção o tempo todo. Os anfitriões não sabiam mais o que fazer para agradá-la. A um ponto em que ela ficava até constrangida com tanta atenção.

No primeiro dia foi um choque de tanto bom trato e assim permaneceu até o quinto dia. O bom trato continuou, mas ela estava se sentindo um tanto deslocada, chegando até mesmo a achar que tanta atenção provinha de uma falsidade muito bem disfarçada. Este pensamento a mergulhava em culpa: “Como julgar falso tanto carinho?”

Sentia-se um tanto asfixiada, respiração intranquila e essa situação a fazia perder energia. Cansava-se rapidamente das conversas, dos contatos. Estava ficando difícil disfarçar esse inexplicável mal-estar.

Naquela noite foi dormir bastante incomodada. Nem leu seu livro de cabeceira. Queria apagar logo, entrar em suspensão existencial.

No meio da noite acordou ofegante e com palpitação por causa de um pesadelo. Virou para o outro lado e voltou a dormir. Acordou bem, renovada e nem lembrou do pesadelo.

No fim da manhã, parou um pouco ao lado do berço onde brincava seu sobrinho. Lá estava ele tentando, aos seis meses de idade, dizer algo para ela. Ela sorria e ele, balbuciando, tentava se expressar com mais ênfase. Ela sorria novamente e ele, sentindo que não estava sendo entendido, começou a gritar os mesmos ininteligíveis fonemas. Ela percebeu a sua aflição e o pegou no colo. Acolhido pelo afeto da tia, ele balbuciava os mesmos fonemas, mas agora bem tranquilo. Parecia que o que ele tinha a dizer não era mais tão importante.

Neste momento ela se lembrou do pesadelo e os sintomas voltaram na hora: respiração ofegante e palpitação. Lembrou que no sonho estava em uma festa bastante animada, comemorando o seu aniversário, mas que ninguém a via e nem a escutava. Ela estava engasgada com um alimento, pedia socorro com gestos e gemidos desesperados, mas estava invisível. Era como se ela não existisse para os outros ali na festa. Estava morrendo quando acordou. Imediatamente ela associou o sonho à sua condição naquela casa.

Não obstante as pessoas a estivessem tratando com toda a educação e carinho, percebeu que não tinha voz para eles. Nada do que ela dizia era sequer interessante para as pessoas ali.

Descobriu que a sua presença como parente era bem-vinda, mas que a sua pessoa, o que ela pensava ou sentia sequer era considerado. Os anfitriões davam muito carinho a ela como parente que é, mas inexistência à sua pessoa. As conversas giravam apenas em torno dos valores, pensamentos e sentimentos dos anfitriões.

Existem diversas formas de se dar inexistência a alguém. Talvez a mais nefasta seja, a par de se tratar bem uma pessoa e, com educação, ignorar o que ela pensa e sente. EGOCENTRISMO COMPULSIVO.

Se você não existe para alguém e ele sente a sua falta, não é de você que ele sente falta, é da sua função social ou, pior, ele sente falta de “vampirizar” a sua energia.

Nenhum motivo justifica qualquer permanência em uma circunstância dessa. Se for inevitável estar lá, caia fora o quanto antes. A sua autoestima ficará muito grata. Ela fez as malas e despediu-se. Os anfitriões, educada e protocolarmente, se despediram dela agradecendo a visita e pedindo que voltasse sempre. Ela agradeceu verbalmente a gentil acolhida. Olhou carinhosamente para o bebezinho e pensou: “Muita gratidão pela lição, meu querido! Eu também mereço o colo que lhe dei e que aquietou a sua necessidade de expressão”.

Beijou o menino, entrou no carro e voltou para casa pensando numa frase que lera em algum lugar: “Antes só sozinha do que só mal acompanhada”. Convívio saudável é estar com quem você percebe que percebe você.

*Texto extraído do Livro “Somos mais interessantes do que imaginamos” – Por Arly Cravo


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: 123rf.com / creativefamily



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