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Coringa nos dá uma aula sobre a sombra coletiva e individual

Será que estamos conseguindo enxergar o outro e a nós mesmos?


Precisamos falar sobre o filme Coringa, dirigido por Todd Phillips e brilhantemente estrelado por Joaquin Phoenix. Diferentemente da eletricidade e ação comum aos filmes de super-heróis, este é um longa-metragem que não nos deixa sair do cinema impunes. Trata-se de um filme denso, sombrio, tenso, que, de alguma forma, impacta o espectador.

Escolhi fazer um recorte do filme e falar um pouco sobre o assunto que mais me tocou: a dificuldade de o ser humano lidar com a sombra individual e coletiva. Joaquin Phoenix interpreta Arthur Fleck, personagem que não nos poupa de uma estranheza que chega a ponto de ser aflitiva, seus trejeitos, sua magreza, seu olhar, sua risada misturada a choro e engasgos resultantes de um problema neurológico, doente mental, deprimido, solitário, altamente rejeitado e invisível.

Arthur tenta ser feliz dentro de sua lógica e dos conselhos de sua adoecida mãe, procura se incluir, rir e fazer rir, mas não consegue levar esse projeto de felicidade adiante, pois seu cotidiano é muito denso, sem suporte ou rede de apoio para tal ambição.


Quanto estamos prontos ou preparados para ver no outro as nossas sombras?

Brene Brown, em seu vídeo sobre a diferença entre simpatia e empatia, diz que para conseguirmos praticar a verdadeira empatia, precisamos escutar o outro e nos conectar com uma parte em nós que sente ou já viveu algo parecido com o que o outro está vivendo. Será que estamos dispostos a fazer isso?

Enxergamos com facilidade defeitos nos outros, que levamos, às vezes, uma vida para conseguir ver em nós mesmos. Quando o outro nos mostra facetas nossas que não queremos ver, nós nos incomodamos. A sombra nada mais é do que aquilo que não queremos ver em nós e muitas vezes acabamos projetando no outro.

Quem de nós nunca se sentiu estranho, sozinho, deprimido, fracassado, frágil? Quem de nós nunca escondeu uma faceta de sua personalidade com medo de ser rejeitado? Quem nunca teve medo de não ser visto, notado, validado e apreciado em sua existência?


Nitidamente, o personagem do filme era tido como um depósito de lixo para as frustrações alheias. É como se pensassem: “Ah, você representa tudo o que mais odeio em mim, então merece o mesmo tratamento que dou a esta parte para a qual me recuso a olhar: a exclusão.”

No filme, aparecem sequências longas do personagem sendo vítima de comportamentos violentos, intolerantes e depreciativos dirigidos a ele pelas mais variadas pessoas em seu entorno. Sua sensação de inexistência, tão típica de sua patologia, era mais do que reforçada e validada pelo social, como se sem palavras essa pessoas gritassem: “Não vamos olhar para o que incomoda, nem no outro nem em nós mesmos.”

A sociedade se mostrou rude, sombria, árida, intolerante, violenta, agressiva e desinteressada durante toda a primeira parte do filme e, mesmo dentro de sua loucura, algumas anotações em seu confuso caderno e em seu comportamento mostram que, de alguma forma, ele sentia isso e percebia o que estava se passando ao seu redor.

Lembro do contraponto do filme “Nise da Silveira”, com sua iniciativa de tratar a loucura também pela arte, com seu afetivo olhar e validação, todas aquelas pessoas mentalmente adoecidas, dando-lhes uma possibilidade de amenizar suas dores, organizar internamente seu mundo de imagens e símbolos, e florescer por meio da arte.

Como ser visto, validado em sua singularidade e conviver em uma atmosfera mais afetiva e humana colaborou para que eles passassem de pessoas passivas, à margem da sociedade, a pessoas ativas e produtivas. Por outro lado, a violência e a intolerância desestruturantes, nocivas fazem piorar o que já está muito ruim, deixando o doente mental em uma situação de exclusão e abandono desesperadores. Vale ressaltar que nos dois casos cada personagem devolveu à sociedade exatamente aquilo que recebeu dela.

Da mãe, também adoecida, de seu suposto pai aos colegas de trabalhos, chefes, desconhecidos em ônibus e na rua, Arthur recebe violência, maus-tratos e exclusão. E, curiosamente, é dessa mesma forma que consegue um lugar nesta sociedade, por meio da violência, do caos e da morte ele parece encontrar um pouco de vida e assim consegue ser visto, algo que era impossível até então.

O mais curioso é que fica tão nítido que ele devolve ao social o que recebe e que deflagra a sombra coletiva em uma das cenas brilhantes e finais do filme, em que a cidade está mergulhada no caos e violência, e ele que estava indo preso, acaba sendo libertado, visto e aclamado como um anti-herói. Nesse momento, não se sabe mais ali quem é o assassino e quem é o povo, todos estão em igualdade, a sombra está à mostra.

Lembro-me ao ver essa cena, imediatamente, do final do livro de George Orwell, “Revolução dos bichos”, em que, através de uma janela, não se podia diferenciar os homens dos porcos.

Uma das muitas reflexões que o filme me traz é que todos nós temos um lado sombrio, obscuro, violento e nada empático, e que em vez de olhar e curar nossas feridas, adoramos projetar nossos males no outro.

Todos desejamos, de alguma forma, ser vistos de forma integral, é nítido no consultório, tanto quando estou como paciente quanto quando estou como psicóloga, o quão curativo, restaurador e integrador é poder se mostrar por inteiro diante do outro e ainda assim continuar a ser acolhido, visto e pertencendo.

Se quisermos colaborar para uma sociedade mais saudável, justa e de melhores relacionamentos, precisamos começar a limpeza olhando e trabalhando dentro de nós.

É muito cômodo ficar sentado no sofá da sala nomeando e apontando dedos para o mal no outro, difícil é ter a humildade de olhar para dentro de si e perceber que antes de mudar o mundo e o outro, temos muito trabalho a fazer em nós mesmos.

 

Direitos autorais da imagem de capa: reprodução.





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