Crônica de um amor maduro:



“O amor não tem idade. Estamos sempre maduros para amar. E não acredito que o amor possa chegar cedo ou tarde. O amor é pontual. Chega sempre na hora certa, seja a hora que for.” Manoel Carlos.

Há muito tempo não se sentia tão acarinhada como agora. Na verdade, tinha até desacostumado. Os relacionamentos anteriores fizeram com que ela se blindasse. A responsabilidade que tinha em suas costas, da mesma maneira, contribuiu para que se fechasse em um mundo só seu.

Não tinha mais tempo para si. Sua atenção era dividida em várias. Distribuída a muitos. Corria tanto, que ao chegar em casa, tarde da noite, depois de uma agenda maçante de compromissos, via-se sozinha. Sabia que tinha conseguido com sucesso encaminhar todas as demandas do dia.

Tinha acabado de falar ao telefone com sua filha. Compartilharam as novidades. A jovem, que já era independente e morava longe, estava feliz. Ela, solitária. Perdia-se em seus artesanatos, livros, poesias. Esgotava-se mais um pouco até o sono chegar. E assim, quando finalmente dormia, esperava o nascer de um novo dia. Tudo recomeçava. Menos ela. Praticamente uma eremítica.

Na dança da vida, não tinha par. E, desacompanhada, recusava-se a bailar. Até que, repentinamente, o passado e o presente uniram-se para conspirar. Estavam planejando incluir o futuro na armadilha. Um nome conhecido há muitos anos, ressurgiu. Hoje, bem mais maduros e experientes, tinham ânsia de compartilhar os acontecimentos de décadas. Tempo em que não se viam. Tempo em que se afastaram.

A afinidade se manifestou como outrora. Acordou como se estivesse hibernando por um longo período. Ao despertar, reacendeu sentimentos igualmente adormecidos. E ela, sentiu-se viva. Fez-se mais bela. Repaginou o visual, começando pelos cabelos, que voltaram a ter o mesmo tom da época em que se conheceram.

Ousou nas roupas e nos acessórios. A elegância costumeira passou a ser figurante. Estava tão radiante que a alegria se tornou protagonista. Dormia menos que antes. Mas, desta vez, por um bom motivo. Suas noites não estavam mais perdidas em sua singularidade. Deixou de ser ímpar. Mesmo que virtualmente, estava acompanhada. Cada mensagem trocada fazia um sorriso brotar em seu rosto.



O aspecto cansado não mais lhe pertencia. O frio na barriga era constante. Do anoitecer ao raiar do dia. Recebeu serenata por telefone. Ele se preocupava até com a sua alimentação. Queria vê-la bem. Ensaiavam combinar um encontro. Quem sabe nem aqui e nem lá. No meio do caminho, num lugar só deles. Mas, ainda faltava coragem da parte dela.

Estava tão escaldada das peripécias da vida, que quando estava prestes a avançar, timidamente recuava. Porém, lá no seu íntimo, sabia que ele não deixaria que ela se afastasse. Não era homem disso. Tinha mais coragem que ela. Também foi calejado pela vida e pelos relacionamentos anteriores. Mas sentia que desta vez seria diferente.

Por uma semana, um mês, um ano ou sabe-se lá quanto tempo. Perto ou longe. Próximos fisicamente ou sentimentalmente. Tanto faz. O importante é que, durando o tempo e da forma que for, eles já se fizeram bem. Ajudaram-se, mutuamente, a renascer. Mesmo agora, em pleno outono, quando as folhas morrem e caem ao chão, desafiaram a estação. Recusaram-se a secar.

A vida é muito fantástica para que passemos por ela predestinados a seguir todas as regras.






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