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Cuidado com a falsa espiritualidade…

A falsa espiritualidade é aquela que, ao se apresentar como defensora da liberdade, impõe a todos regras para o alcance da salvação, da iluminação ou da famigerada evolução espiritual.

É aquela que se vale da palavra “disciplina” como forma de mascarar a privação da espontaneidade, criando robôs bem programados para reproduzir discursos baratos. É aquela na qual o serviço ao próximo, em lugar de se configurar como altruísmo – um natural impulso de promover a qualidade de vida do outro no contexto de uma sociedade desigual – é praticado como sendo “caridade”, termo esse que, embora expresse bondade e compaixão, esconde uma ação egoísta, necessária ao alcance de benefícios espirituais e à manutenção desse novo papel que se optou por desempenhar.



Sim, porque a falsa espiritualidade compreende a aquisição de uma nova máscara, a interpretação de um novo papel que, agora, é o papel do meditador, do espiritualizado.

Trata-se daquele indivíduo que adere ao veganismo, à prática meditativa e ao contato com a natureza, o que são práticas incontestavelmente louváveis e até necessárias, mas cujo sentido é esvaziado quando se tornam prioritárias, quando se dão em detrimento do real autoconhecimento, do empenho em aparar as próprias arestas. Pois uma falsa espiritualidade não raro forma sujeitos assim: mestres em citar passagens bíblicas, bons entendedores de chakras e cura quântica, mas arrogantes e ensimesmados ao restringirem ao discurso a máxima cristã do amor ao próximo, pouco ou nunca levando-a ao campo da ação.

A justificativa? “É preciso ajudar a si mesmo para, então, ajudar ao próximo”. Uma premissa verdadeira, mas problemática quando a segunda parte nunca se concretiza. Diante disso, “não dê o peixe, ensine a pescar” é só mais uma dentre as muitas bizarrices que vejo no contexto religioso/espiritualista.


A falsa espiritualidade é irmã siamesa da falsa humildade naquele que resiste a se aceitar como mero e eterno aprendiz.

E, nesse sentido, ele tem sempre uma resposta super espiritualizada para tudo, pois, intimamente, considera-se superior aos demais, julgando-se apto a direcionar os pobres mortais que, diferentemente dele, ainda não encontraram o caminho para a salvação.

É necessário ressaltar, porém, que não é falso e tampouco mal-intencionado o indivíduo que se envereda pela falsa espiritualidade. Trata-se apenas de um buscador da verdade que, durante a sua jornada, naturalmente se deixa seduzir pelo êxtase, pelo flerte com o sobrenatural (não raro mediante algum investimento), pela possibilidade de viver numa espécie de mundo paralelo.

Se comprometido com o próprio processo, porém, o verdadeiro buscador da verdade perceberá que, da mesma forma que “a fé sem obras é morta” (Tiago 2: 26), o excesso de procedimentos de praxe – a frequência à missa ou ao culto aos domingos, o veganismo, o jejum da Quaresma, as meditações, o dízimo e afins – também é vazio sem o comprometimento com a vida espiritual no seio do cotidiano.


A verdadeira espiritualidade não afasta o buscador dos demais. Ouço buscadores fazendo afirmações do tipo “eu me afastei dessas pessoas porque elas estavam muito habituadas ao álcool e essa não é mais a minha realidade” ou “parei de frequentar tal lugar para não ser influenciada pela sua energia” e fico me perguntando até que ponto são positivas tais declarações e se não esconderiam um afastamento da própria família, dos amigos e de situações com as quais, ao optar por uma vida espiritual, o buscador deveria justamente lidar em vez de tomar distância.

Vem à baila aqui aquela velha e conhecida ideia de “estar no mundo, sem ser do mundo”, com fulcro em diversos textos bíblicos (João 15:19, 17:15-16, Romanos 12:2 etc.).

Desconheço mestre espiritual que nos haja sugerido que, numa atitude de escapismo, fugíssemos do mundo ou de sua realidade de sofrimento, corrupção e decadência moral. Pelo contrário, estar no mundo equivale a reconhecermos tudo aquilo que destoa do propósito da Existência, do Criador, do Universo, de Deus para, então, transformá-lo e não para tomarmos distância. É disso que Jesus trata com o verso “assim na terra como no céu” (Mateus 6:10) ao ensinar a universal oração aos seus discípulos. Estar no mundo e não lhe pertencer, portanto, não consiste apenas em aderir a um estilo de vida alternativo e evitar o que supostamente não contribui com a nossa evolução, mas, muito para além disso, em viver a mensagem dos grandes mestres em sua essência, desbravando o nosso mundo interior e servindo os marginalizados, pobres, injustiçados, doentes, presos e até aos nossos inimigos, reconhecendo o divino em cada um deles em lugar de tomá-los como pobres almas.

Como num belo livro do Augusto Cury – no qual um jovem de elite, estudante de medicina, torna-se discípulo de um filósofo mendigo –, os aparentemente pequenos podem revelar-se nossos grandes mestres…


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: fizkes / 123RF Imagens

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