De tanto cair em abismos, eu aprendi a voar



Eu não tive outra opção, não tive oportunidades de ter aulas teóricas sobre voo. Aprendi despencando mesmo, trombando nas pedras, com o coração saindo pela boca, sem nenhum paraquedas à minha disposição.

Os meus professores foram as dores, os equívocos, os enganos, as desilusões, os golpes da vida e as frustrações que me fizeram sangrar. Quando eu pensava que era o meu fim, sempre surgia uma voz berrando em meus ouvidos, num tom apressado e intolerante, para que eu me virasse e voasse daquele abismo pois, do contrário, eu permaneceria lá.

Aquela voz deixava claro que ninguém me resgataria, mas, ao mesmo tempo, eu percebia que aquele mensageiro me transmitia confiança. Apesar da aspereza do tom de voz, eu podia captar nas entrelinhas que ele queria me lembrar de que, aqui dentro, existem força e resiliência absurdas.

Então, eu enxugava as lágrimas e cessava os soluços por alguns instantes. Eu me lembrava da reserva de fé que tenho e que sempre funciona quando eu me disponho a dar o primeiro passo.

Nessa hora, outra voz, branda e acolhedora, me pedia para eu testar o poder das minhas asas, que eu confiasse, pois daria certo. Eram anjos sussurrando em meus ouvidos, eu juro. Eles não me garantiam que não me machucaria durante as tentativas de voar, mas eles me faziam acreditar que eu sairia daquele buraco e que, posteriormente, as feridas se transformariam em cicatrizes das quais eu me orgulharia.

Os anjos me diziam, ainda, que eu transformaria as minhas dores superadas, em textos para alcançar outras vidas e, assim, encorajá-las a voarem também.

Dessa forma, eu parei de sentir desespero quando caio em um abismo, eu aprendi que, com calma, fé e perseverança, eu saio de lá. Eu sempre saio, eu alterno escalada com voo, evito pensar na distância que falta para eu concluir o processo. Eu paro um pouco para chorar, durmo um pouco para me desconectar da dor, mas não desisto do foco.



Então, se for preciso, eu rastejo, engatinho, dou um passo de cada vez, mesmo trêmula, e quando menos espero, estou sobrevoando aquele abismo que tentou me engolir.


Direitos autorais da imagem de capa: Drew Colins on Unsplash






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