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Deixa a fita rolar

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Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de abraçar e tempo de afastar-se; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz.- (Eclesiastes)



Deixa estar… Deixa a fita rolar… Deixa passar…

São tantas as vezes nas quais nos dizem isso.

Eu mesma já ouvi esta frase da minha mestra quando insistia em acelerar a velocidade sagrada do tempo. Quando era tomada pelo imediatismo desesperador da juventude. Quando ainda não entendia que quando nada fazemos é que tudo acontece.


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Ouvi esta frase tantas vezes e só recentemente entendi que “deixar a fita rolar” não se trata apenas da passividade na forma de se comportar. O deixar não significa exatamente não fazer nada e/ou deixar de fazer algo. Deixar a fita rolar significa desligar o “pause” que apertamos intencionalmente ou não e que nos mantém consciente ou inconscientemente parados em um ponto da nossa vida.

Deixar a fita rolar quer dizer solte! Deixe a vida seguir! Aperte o play!

Muitas vezes nos comportamos de forma a nos desligarmos do presente – ou melhor – desligá-lo de nós. Como fazíamos com as fitas cassetes que obedeciam aos nossos comandos de “play”, “pause” e “stop” nos nem tão distantes anos 80. As fitas eram sensíveis, talvez tal qual nosso existir. Elas se enroscavam no aparelho se insistíamos muito em parar, ligar, tocar para frente, tocar para trás e a nossa vida pode também “se enrolar” se insistirmos em ficar indo e voltando ao invés de seguirmos em harmonia com o tempo presente.


Desligar-se do presente pode nos levar ao pseudofuturo dos ansiosos que vivem sempre em contato com o que ainda não veio nem existe. Pode nos levar ao universo dos fóbicos que vivem “pré-ocupando” suas mentes com o amanhã e que passam pelo hoje sem o perceberem.

Desligar-se do presente pode também nos levar ao passado triste dos depressivos, cujas memórias só se lembram do que foi ruim, do que foi sofrido e do que deu errado; ou então do que era bom e não existe mais, do que partiu como tudo parte.

Ansiosos vivem presos ao futuro e depressivos vivem presos ao passado. Rebobinam incansavelmente suas fitas ou a jogam para frente sem nunca ouvir o que o presente tem a tocar.

A vida parte de nós quando deixa de ser presente.


Deixa a fita rolar…

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Pare de lidar com a vida como se estivesse diante de um toca fitas apertando aleatoriamente um dos botões imaginando ter algum controle. Não temos controle nem sobre nosso coração e nosso pulmão que mantém vivo o nosso corpo, que dirá sobre a existência complexa, confusa e entrelaçada da nossa vida e das que existem perto de nós, com as quais trocamos muito ou pouco do que somos, pensamos, sentimos.

Deixa a fita rolar porque é só assim que se ouve a música.


Deixa a fita rolar. Não apresse o tempo.

A rotação da música, o curso do rio e do sangue em nossas veias e artérias tem velocidade própria.

Deixa a fita rolar porque quando chegar o fim – tal qual acontecia nos toca-fitas – tudo se desliga sozinho.

 


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