Mensagem de ReflexãoPaz

Dependência do ter: quanto vale a sua paz?

A gente perde tanto tempo pensando e querendo tudo que devia ser e não foi. E isso, ao contrário do que acreditamos, não nos leva a outro lugar que não a nossa estagnação. A gente quer mais e mais e mais e mais e mais. E isso nos cega, nos confunde, nos limita.



A grande questão não é querer mais, mas querer mais ~ coisas materiais ~ acima de tudo. Querer mais e viver no futuro, querer mais e se tornar refém do querer. E assim viver numa prisão chamada dependência. Dependência de ter.

Quando tinha 18 anos, passava pelo vestibular e, lembro-me como se fosse hoje, que o tema da redação vinha a partir da nossa interpretação de uma história em quadrinhos sem qualquer diálogo – apenas com cenas – e, a partir dela, deveríamos escrever uma narração ou uma carta.

Apesar de ter estudado e treinado exaustivamente dissertações de textos argumentativos, que era o que se esperava que caísse na prova, meu coração se encheu de alegria ao poder escrever livremente uma história totalmente criada por mim e para falar sobre essa dualidade que é sempre tão atual: ter x ser.


Por alguns minutos, eu me esqueci de que estava fazendo uma prova e coloquei a minha alma naquela escrita. Escolhi fazer uma narração. Aos poucos, o texto foi saindo e quando dei por mim, ele estava pronto. Um texto completamente fora dos padrões, desde a orientação na forma até o conteúdo, que continha uma crítica clara: a nossa sociedade ainda se preocupa muito mais com o ter.

E depois veio o medo. Será que aquele texto seria bom o bastante para a banca examinadora?  Será que eu me afundaria na prova? Será que eu conseguiria a nota para passar? O medo era tão grande que no dia em que a divulgação das notas era esperada, eu enrolei ao máximo para saber a minha nota. E se eu não tivesse passado?

Mas, eu passei e passei em grande parte por conta da minha nota máxima em redação, que eu fiquei sabendo através de uma ligação de uma amiga. “Priscila, parabénsssss!”, dizia ela do outro lado na linha. E eu, confusa, perguntei: “Pelo quê?”. “Você passou! E ainda com 10 em redação, cabeçuda!”

Não era comum tirar nota máxima em qualquer das provas do vestibular, muito menos em redação, justamente pela subjetividade. É claro que existem critérios objetivos para julgar, mas, no fim, sempre a forma como você atinge o seu interlocutor é o que faz a diferença. Eu fiquei extasiada: “uaaau, tirei 10”. Eram três examinadores, salvo engano, e a minha nota seria a média deles. “Os três me deram 10!”, eu pensava sem acreditar.


Eu havia tocado aqueles interlocutores que, naquele caso me avaliavam, porque eu falei uma verdade que ninguém quer ouvir: nós – sociedade – valorizamos o que as pessoas tem e não quem elas são. E, por isso, criamos uma sociedade doente que, antes mesmo de ser, precisa ter e tendo, mal sabe quem é e mal sabendo quem é, faz mal uso do que tem.

A dualidade do ter e do ser sempre me chocou, principalmente, porque quando invertemos os valores, valoramos as pessoas pelos bens que elas possuem e isso é louco demais! As pessoas são muito mais do que aquilo que elas tem – ou muito menos, a depender da pessoa. Mas, elas continuam acreditando que precisam ter muito, porque quem tem muito é valorizado.

E nessa dinâmica nonsense, livre de qualquer sentido, repetimos comportamentos sem nos questionarmos, sem nos rebelarmos. E isso está longe de fazer voto de pobreza. Aliás, não tem absolutamente nada a ver com isso. Mas, em simplesmente compreender que ser é ser é ter é ter. Ou que ter não é ser! 
 


De que adianta acumularmos toda a riqueza do mundo se o nosso ser é vazio, incompleto, confuso? Seremos ricos, ok. E daí? Teremos a aprovação dos outros, ok. E daí? Seremos aceitos e parte do grupo, ok. E daí? 
 
Toda essa lógica ilógica nos fará estar em paz com nós mesmos? Nos fará viver a nossa verdade? Nos fará nos alinhar o nosso verdadeiro eu? 
 

Somente quando verdadeiramente sabemos quem somos fugimos da dependência do ter. Sim, porque somente quando nos alinhamos com a nossa verdade encontramos a nossa paz. Ter de forma incondicional não nos trará a nossa paz. Então, simplesmente ter a qualquer preço, antes mesmo de ser, vale a nossa paz? Qual o preço da sua paz?

 

Fonte: Escrito por Priscila Roma via priscilaroma.com.br


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