Depressão é doença. Mas doente mesmo é quem faz pouco da tristeza do outro

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É triste, mas eu compreendo que, para muitas pessoas, dar cabo da própria existência seja o único meio de fazer parar de doer.



Eu compreendo Flávio Migliaccio. Compreendo sua dor e lamento tanto julgamento velado e explícito a quem tira a própria vida. Há um levantamento recente da Organização Mundial da Saúde dando conta de um número assustador: a cada quarenta segundos, uma pessoa comete suicídio em algum canto do mundo. É muita gente. É muita dor.

É triste, mas eu compreendo que, para muitas pessoas, dar cabo da própria existência seja o único meio de fazer parar de doer.

Eu compreendo que a potência mesma da vida, essa pulsão de viver que nos estimula e encoraja a fazer coisas, também pode se tornar arroubo de morte. Para querer morrer, é preciso estar muito vivo, sensível, sensibilizado. Padecendo da mesma vida, esse fabuloso banquete de sentidos que ora é uma festa de delícias, ora é uma xepa de agonias.


Só deseja morrer quem já não suporta a vida que passa através de seu corpo receptivo, fragilizado pela impossibilidade, o desespero e o sofrimento.

Tanta gente negando a própria tristeza e escancarando o desconsolo alheio, eu também compreendo. É mais fácil esconder as nossas penas e revelar as do outro que assumir as nossas culpas, nossas faltas, nossos males.

Eu compreendo, ahhh… como eu compreendo que um país como o nosso, que tanto maltrata sua gente que trabalha, seus empregados e empregadores, seus vendedores de rua e suas donas de casa, seus garis e seus doutores, seus operários e seus artistas, só pode mesmo produzir tristeza em escala industrial.

E eu compreendo sobretudo que a depressão é uma doença. Mas que doente mesmo é quem faz pouco da tristeza do outro.


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