Desenquadre-se!

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Enquadrar-se parece ser uma necessidade humana muito comum na adolescência, quando ainda não temos estruturado o que chamamos, na psicanálise, de ego. O ego é o nosso eu consciente e é formado principalmente pelas nossas experiências e pelo que digerimos delas.



Adolescentes sentem uma imensa necessidade de serem aceitos e, por isso, costumam comportar-se de forma bastante padronizada, exatamente para que sejam aceitos e sintam-se parte de um grupo. Dentro do grupo, fica clara, para quem observa, a igualdade na forma de vestir-se, na maneira de falar, nas músicas que ouvem e, principalmente, nos ídolos que seguem, admiram e que, muitas vezes, imitam.

A idolatria é muito comum aos jovens e também a reprodução do comportamento do ser idolatrado.

Espera-se que tanto a necessidade de enquadrar-se quanto a propensão à idolatria estejam extintas na fase adulta, quando somos providos então da total capacidade de pensar e de sentir de forma liberta. É muito importante que um adulto supere a neurose de ser aceito ou não por um pequeno grupo ou mesmo por grandes nichos sociais.


Assim como uma pessoa mantém sua simpatia por um time de futebol e esta escolha não se modifique diante dos que torcem por outro time, mesmo diante de qualquer pressão externa, o natural é que uma pessoa adulta não sofra influência também em outros segmentos.

É pouco provável que modifiquemos algumas escolhas por imposição do ambiente, porém, é bastante interessante que estejamos sempre atentos a elas e ao que nos levou àquela escolha, porque pode ser que isso nos leve a algumas mudanças e/ou pequenas adequações ao que podemos chamar de ideologias.


Assim como a simpatia pelo tal time de futebol, outras escolhas ideológicas nascem na infância, dentro do seio familiar ou na adolescência, quando estamos necessitados de aceitação e de autoafirmação.

Trazemos aos bastidores do palco no qual levantamos nossas bandeiras ideológicas as nossas neuroses, os nossos traumas, as nossas frustrações, as nossas dores e talvez até nossos amores. Além disso, muitos ainda buscam os tais grupos de “adolescentes” para sentirem-se enquadrados e aceitos.

Percebi isso quando questionei um grupo de adultos que fazia um movimento em uma rede social a favor da vida. Ali eles se colocavam em luta pela igualdade, repugnavam a pena de morte e falavam no direito à vida. Repugnavam os países nos quais se aplica a pena de morte e divulgavam o trabalho da comissão de direitos humanos. Imediatamente depois, um dos membros deste movimento colocou-se favorável ao aborto. Diante desta afirmação, eu o questionei, seguindo o seu próprio raciocínio, porque toda vida deveria ser respeitada e defendida sem nenhuma distinção, com exceção a do bebê que se encontra ainda no ventre da mãe. Não falei em criminalização e/ou descriminalização do mesmo; questionei apenas qual era a coerência interna que regia seu pensamento e comportamento. Como resposta à minha pergunta, eu recebi apenas uma agressão verbal – muito comum nestes casos.

Percebam que, muitas vezes, por trás de grandes movimentos estão apenas adolescentes imaturos cheios de travas emocionais, tentando enquadrar-se em um grupo que os aceite sem saber sequer o que falam. Lembram os que ouvem músicas sem entender a letra. Esquecem-se de pensar no que dizem e de questionar se realmente acreditam no que gritam pelas ruas em palavras de ordem.

Não siga modelos, tampouco generalize os outros através dos crivos de enquadramento. Eu mesma já cansei de ser questionada sobre minha ideologia política por imaginarem que todo psicólogo deveria seguir a bandeira tal. Já me fizeram menção a imaginarem que voto no partido X quando escrevi um artigo que falava sobre a importância de entender a aceitar a natureza sexual dos nossos filhos, ou porque já fui ao show do Chico Buarque de Holanda.

Vejo jovens nas ruas vestindo camisetas que estampam o rosto de um guerrilheiro sem saber sequer o que ele fez. Entendo-os na busca por enquadrarem-se, mas dos adultos espero que superem isso.

Quando ouço os gritos em prol de uma cartilha de gêneros de um lado, enquanto do outro gritam pela imposição do livro que alicerça o cristianismo, o quadro é idêntico ao de uma partida de futebol. Uma torcida e outra se engalfinham em prol de seu time, mais nada. Idênticas em seu comportamento, alienadas em sua idolatria e ainda imaturas na busca por enquadrar-se de um lado e não conseguir ver no outro apenas a liberdade de ser e de viver como se quer.

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