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Destino de borboleta…

Quando escrevo, tenho todas as estranhezas do mundo. Ou, simplesmente, sou eu a estranheza dentro do mundo.


Se eu acreditasse em fadas, diria que alguma fada me tocou, enquanto minha inocência corria atrás das borboletas.

Mas, acredito em anjo protetor. Talvez o toque tenha vindo dele! E tornou-me em duas! Antes, deixasse-me ser apenas eu, sem essa visão alcoolizada, enxergando duplamente as coisas erradas, e sem poder fazer nada.

Destinos ambíguos, traçados em minhas duas mãos! Como marionete de mim mesma, a mão direita escreve. Expõe-me, colocando minha alma nas letras, enquanto a outra observa-me por entre os vãos dos dedos, canhotos e recuados. Tão primitivamente lógica, em seu conservadorismo. Contudo, conforma-se, já que não consegue ser ouvida, e nem lidar, com essa particularidade de sua outra metade, que, sequiosa, banha-se de letras.

Uma recua, a outra avança. Enquanto a esquerda se cansa, a direita tem pressa de vida. No entanto, ambas, na complexidade, ainda são as mesmas crianças que voaram atrás das borboletas.

E, permanecem acreditando na possibilidade dos sonhos!


Quando leio, tanto a direita como a esquerda se comovem, se envolvem e, no mesmo ritmo, entrelaçadas, se movem. Sou una, com todas as emoções, gostos e desgostos humanos.

Nas palavras escritas, enxergo melhor as variadas cores, sinto a diversidade dos cheiros, entro na casa de estranhos, observo os gestos que emergem do ódio, e o arrulhar, doce, dos amores. E, nas águas da alma, sou barquinho errante, nas partes profundas. Nelas, acho-me preenchida, me basto — conectada às tomadas do mundo.


Faço parte dos colóquios expressivos, das tramas, visando o bem; das paixões desesperadas, de todas as voragens, e acabo, irrefletidamente, enamorada pelo principal personagem.

Sou a camponesa da página, que segue, cantarolante, com seu cesto de flores. Caminho pelas linhas da história, como se fossem trilhos sobre uma longa e inevitável estrada.

Sou as flores do cesto, se assim for meu desejo. Sou as folhas das matas, sou o livro de mim!

Sou os paralelos trilhos, os grandes olhos do infinito, acompanhando os acontecimentos do começo ao fim.

Ou apenas uma borboleta, tentando sair do casulo, olhando aos poucos, e sem pressa, o sol da vida que me fortalece.

E sem entender o que me cerca, e adiante me espera, ainda assim, mergulho no ar. Porque é meu destino — maior – voar, em busca dos perfumes que amenizam a feiura do mundo.

E, quando a noite me cobre, adormeço, além dos perigos do mar, na borda de um riacho com som de realejo. E, ali, a céu aberto, encontro-me e vejo-me: afogada de sonhos e desejos.

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Direitos autorais da imagem de capa: pat138241 / 123RF Imagens





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