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Devemos nos contentar em ser nós mesmos?

Há quem pense que para se realmente feliz é só aprender a amar a si mesmo da maneira como se é. Isso depende do que entendemos por “sermos nós mesmos”. Trata-se de ficar numa perpétua gangorra entre satisfação e desprazer, calma e excitação, entusiasmo e apatia? Ceder a esse modo de pensar enquanto deixamos os impulsos e as tendências correrem soltos, seria um modo muito fácil, uma solução intermediária, um tipo de rendição até.



Muitas receitas para a felicidade insistem que, por natureza, somos uma mistura de luz e sombra, portanto devemos aprender a aceitar os nossos erros e as nossas qualidades positivas. Elas afirmam que podemos resolver a maior parte dos nossos conflitos interiores e viver cada dia com confiança e bem-estar se desistirmos de lutar contra as nossas próprias limitações. O nosso melhor caminho seria liberar a própria natureza, já que tentar contê-la só agravaria os problemas. É óbvio que, se tivermos que escolher, será melhor viver com espontaneidade do que passar os dias rilhando os dentes, mortos de tédio ou odiando a nós mesmos. Mas todas essas receitas não seriam apenas uma maneira de embalar os nossos hábitos num pacote bonito?

Pode até ser que “expressar-se naturalmente”, dar liberdade aos próprios impulsos “naturais”, traga alívio momentâneo para as tensões interiores, mas continuaremos presos à armadilha do círculo sem fim dos nossos hábitos. Uma atitude como essa não resolve nenhum problema sério, já que ao sermos ordinariamente nós mesmos permanecemos ordinários. Como escreveu o filósofo francês Alain: “Não é preciso ser feiticeiro para rogar uma praga sobre si mesmo, basta dizer: “Sou assim e não posso fazer nada”

Somos muito parecidos com aqueles pássaros que passaram tanto tempo na gaiola que mesmo quando têm a possibilidade de voar para a liberdade voltam a ela. Estamos tão acostumados com nossos erros que mal podemos imaginar como seria a vida sem eles. A perspectiva de mudança nos dá vertigens.


E isso não é falta de energia. Como dissemos, fazemos esforços consideráveis em um sem-número de direções, empreendendo incontáveis projetos. Como diz um provérbio tibetano: “Eles têm o céu estrelado como chapéu e gelo como botas”, porque ficam acordados até tarde da noite e acordam antes do amanhecer. Mas se nos ocorre pensar: “Eu deveria tentar desenvolver o altruísmo, a paciência, a humildade”, hesitamos, e dizemos a nós mesmos que essas qualidades virão naturalmente a longo prazo, ou que não são grande coisa, e que até agora passamos perfeitamente bem sem elas. Quem, sem esforços metódicos e determinados, pode interpretar Mozart? Certamente isso não é possível se ficamos martelando o teclado com dois dedos. A felicidade é um modo de ser, é uma habilidade, mas para desenvolvê-la é necessário aprendizado.

Como diz o provérbio persa: “A paciência transforma a folha de amora em seda”.

EXERCÍCIO DESENVOLVIMENTO DA ATENÇÃO

Sente-se na sua postura de meditação e concentre toda a sua atenção num objeto de sua escolha. Pode ser um objeto da sua sala. Se preferir, concentre-se na sua respiração ou na sua própria mente. Ao fazer isso, a sua mente começará a divagar. Cada vez que isso ocorrer, traga-a com delicadeza de volta para o objeto que você escolheu, como uma borboleta que retorna para a flor da qual retira seu alimento. Ao fazer isso muitas vezes, com perseverança, a sua concentração se tornará mais clara e estável. Caso sinta sonolência, assuma uma postura mais ereta e levante um pouco o olhar para despertar a sua atenção. Se a mente ficar agitada, relaxe a sua postura e dirija o olhar ligeiramente para baixo, permitindo que qualquer tensão interior se dissolva.


Cultivar a atenção e a presença mental dessa maneira nos dá uma ferramenta preciosa para todos os outros tipos de meditação.

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