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Deveríamos ser como as andorinhas! Uma só não faz verão…

Como andorinhas que, sozinhas, não querem fazer verão; voávamos em bandos alegres, irreverentes, barulhentos, sem haver tempo para a quietude.

Quase na similaridade do calendário, nossas vidas seguem uma ordem determinada de estações.


Vivemos a primavera de nossa infância! Verdura de um tempo que, como botões, têm sua urgência de desabrochar.

A estação do verão define bem nossa adolescência. Somos flores desabrochadas, apaixonantes e apaixonadas pela vida.

Nosso tempo outonal toma outro rumo. Ficamos sérios e amordaçamos a espontaneidade. Por que será? Ah, somos pais, e profissionais! Tornamo-nos éticos. Temos um ideal para alcançar, uma postura de chefe para zelar e uma conta bancária para inchar. Cansaço… todos os dias matamos um leão e sobra-nos um ínfimo tempo para sorrir.


Inevitavelmente, chega o inverno. Cabelos nevados, face esmorecida, acinzentada e sem sol. Em cada perda que sofremos, a boca perde o ritmado e o verbo regular, falar, deixa de ser voz. O riso vai morrendo cada dia um pouco… até não sabermos mais sorrir.

Amei, com um rigor incomum, a estação de minha adolescência.


Tórrido verão, que ainda queima meu coração!

Otimizávamos a vida, abraçando um conjunto de forças. Como andorinhas que, sozinhas, não querem fazer verão; voávamos em bandos alegres, irreverentes, barulhentos, sem haver tempo para a quietude.

Época maravilhosa de aprendizados, de portas e janelas abertas para receber o frescor da brisa, e, também, os segredos que permeavam o mundo. 

Foi quando pude desfrutar da liberdade dos passeios, sem precisar segurar a mão de algum adulto.

Foi quando pude perceber-me e ouvir o pulsar do coração. E, saber a razão porque ele batia mais forte, saltava, dava pinotes e raramente aquietava-ve.

Foi quando minha percepção tornou-se aguçada, meus sentimentos mais nítidos, distinguindo a grandeza ou pequenez que me rodeava.

Foi quando optei pela arte que me agradava,  a música que me emocionava, a roupa que me caía bem.

Foi quando personalizei-me,  inventei diversões, usei o ray ban, redondo, de John Lennon, e coques estranhos nos cabelos. Interagi, reagi, provoquei, cantei e dancei.

Foi quando aprendi que a vida era curta e não devia perder tempo correndo atrás do impossível. Agarrei as possibilidades próximas, surpreendi-me e, também, decepcionei-me.

Minha adolescência despontou, em meio à fervura da época, com a microssaia irreverente, os cabelos longos, botas até os joelhos, cantando a música de Caetano ” Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento. No sol de quase dezembro, eu vou…”

O Sol de dezembr, ou de qualquer outro mês, era bom. Ruim mesmo era não ter sol e ir para o cinema sob a chuva. Ruim era não poder comer pipoca na pracinha, nos tempos das geadas, ou não ter moedas para uma coca-cola.

Tínhamos o verão na alma e a inquietude de um vento quente. Ríamos, sem que fosse preciso haver motivos para risadas.

Nunca gostei de seguir massas ou aderir às atitudes suspirantes das menininhas. No auge da febre delirante, que o rei Roberto Carlos provocava, contrariei, torcendo para o Jerry Adriane.

Durante o recreio do colégio, parecíamos dois grupos de políticos de partidos opostos, defendendo seu ídolo, acirradamente. No pátio. Distante dos ouvidos dos mestres. Na sala, éramos santas concentradas, com bolas de chicletes grudadas, sob a carteira, e bolinhas de bilhetinhos sendo atiradas.

Misturava-me à massa, para não ser chamada de: fora-de-moda, ultrapassada ou retrógrada. E, embora discordasse daquelas paixões desenfreadas, daqueles amores impossíveis, não dizia nada, para não magoar.

Discordava das lágrimas, abundantes, soluçantes, e sem sentido. Quando Roberto Carlos casou-se com a Nice, o mundo veio abaixo. Para onde quer que eu olhasse, alguém tinha os olhos vermelhos. Os grupinhos exibiam a estampada dor de um velório, e a pobre Nice recebeu muitas pragas de alguns corações afoitos e inconformados.

Num estalar de dedos, eis o outono de nossas vidas adultas. E, sutilmente, sofremos a queda da temperatura…

No inverno, a maioria se encolhe, na estação de sua velhice. Murcha. Sem sonhos, sem fantasias e sobrevivendo sob o calor das asas de outros.

O verão de nossa adolescência deveria ser um estado de alma permanente. Nossas faces nunca deveriam perder o espanto, diante da grandiosidade do Universo. Nunca deveríamos deixar de contar as estrelas, imaginando que poderíamos voar até elas.

Nossos amanheceres deveriam ser perpetuados, com o sabor de primeira vez. Cada vez que acordássemos, o sol seria novidade brilhando em nossos olhos.  E o amor teria a retumbância e o encanto misterioso do primeiro.

Nossa inquietude adolescente nunca deveria morrer. Com o passar dos anos abandonamos o desejo de transformação, de fazer nossa parte para mudar as coisas erradas do mundo. E permitimos que nossos desejos tombem, cansados e conformados. Triste doença do conformismo, vazio de esperanças, atrofiando nossos sonhos.

Nosso espírito adolescente, essa estação maravilhosa do verão, deveria ser eterna.

E o sol brilharia para todos… Sempre! No céu e no coração!

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Direitos autorais da imagem de capa: igabriela / 123RF Imagens





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