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A dificuldade em reter talentos…

A dificuldade em reter talentos…

Nos últimos quatorze anos, trabalhei para indústrias de diversos ramos – metalúrgicas, fabricantes de peças, plástico e polímeros, tratamento de fluidos, dentre outras. Nesse nicho de mercado, a maior parte dos meus clientes sempre foram outras indústrias, que fabricam para o consumidor final.


Sendo assim, costumo transitar dentro de outros parques, como empresas de alimentos e bebidas, automotivas, papel e celulose, açúcar e álcool, petroquímicas, etc. Uma das nossas funções é de parceria com os clientes, me unindo à equipe deles para consertarmos falhas e encontrarmos novas soluções, a fim de que a produção nunca pare, que os índices sejam alcançados, que não haja retrabalho e que a superação seja a rotina.

Para exercermos essa função com excelência, precisamos de uma equipe técnica, altamente qualificada e com perfil comercial. Precisam ser pessoas que saibam trabalhar sob pressão, em áreas de risco, altura, ambientes confinados e muitas vezes, com disponibilidade 24h do dia para, a qualquer momento, chegarem a arriscar suas vidas de modo que, no mundo aqui fora, possamos agora estar sentados em uma cadeira, em frente a uma mesa, com um computador, com o frescor de um ar-condicionado e luz emanando no teto de um escritório.

Infelizmente, uma das dificuldades é conseguirmos profissionais com o conhecimento técnico e capacitação suficiente para esse trabalho. Quando conseguimos encontrar essas pessoas, elas são treinadas dentro das áreas fabris, tendo acesso a segredos industriais e tecnológicos. Esse profissional não fica “pronto” em menos de seis meses. A empresa precisa investir não só nos treinamentos, mas em exames médicos periódicos, em atualizações, viagens e equipamentos de segurança calibrados sob medida para cada indivíduo.


Após todo esse investimento, aparece um concorrente oferecendo a esse profissional um salário pouca coisa melhor, e o mesmo simplesmente pede demissão, levando tudo o que foi investido, além do conhecimento tecnológico que seria exclusividade da empresa – apesar de assinarmos termos de confidencialidade, não é possível esquecermos algo que aprendemos. Acredito também que, por mais correta que a pessoa seja, nos momentos de decisão, ela levará em conta seu acervo mental, e aqueles detalhes técnicos que fariam a diferença, são considerados – são humanos, não máquinas.

Vivenciei isso algumas vezes, vejo concorrentes vivenciarem isso – eu mesma já trouxe profissionais da concorrência para as empresas que eu trabalhei, assim como perdi profissionais excelentes, com os quais eu pensei que iria contar por muitos anos.


Quando converso com outros gestores de pessoas, vejo que a dificuldade que eu sempre tive é a mesma de todos: reter talentos dentro “de casa”.

Antigamente, era comum encontrar profissionais que passavam 15 a 20 anos trabalhando no mesmo local. Faziam suas carreiras e se aposentavam sob o mesmo CNPJ. Isso, inclusive, era valorizado. Há umas duas décadas, começou a cultura do “mudar para conhecer”. Passar mais de 5 anos em uma empresa virou comodismo. Quanto mais experiências diferentes se conquistavam, melhor para o currículo e mais procurado seria o profissional.

Hoje, ao menos na indústria, essa tendência não se confirmou. Como descrito acima, o investimento necessário em cada indivíduo para trabalhar nesse ramo não é feito para haver rotatividade. As indústrias valorizam o profissional que enxerga a empresa como uma segunda casa. Na verdade, eles precisam que os funcionários se dediquem à empresa como se dedicam ao seu próprio lar, que zelem por ele, que lutem por ele e que façam o possível para mantê-lo saudável e produzindo.

Já encontrei locais em que as pessoas que têm acesso a segredos industriais, assinaram contratos onde se comprometiam a, num eventual pedido de demissão, pagar uma multa que supera em muitos dígitos o valor da rescisão – em dólares. Eu entendo isso como uma espécie de prisão. O profissional simplesmente fica “acorrentado” à empresa. Conheci uma pessoa que trabalhava sob a égide desse contrato. Um verdadeiro gênio, contudo uma pessoa nitidamente frustrada. Seu ambiente de trabalho não o agradava, transferiram ele para uma função que não era compatível com o seu perfil e, apesar dos seus pedidos de mudança, a empresa determinou que ele deveria seguir daquele modo. E, claramente, devido ao contrato, ele jamais conseguiria pedir demissão.

Será que esse funcionário realmente produz com a qualidade de que ele é capaz? Isso é ruim para a empresa e mais ainda para a própria pessoa, que se sente absolutamente desmotivada e assiste uma vida de oportunidades passar pela janela.

Será que isso é realmente necessário para reter uma pessoa importante na corporação? Não há mesmo outro jeito?

Caminhos alternativos envolvem diversos fatores, mas todos eles passam pelos líderes.

Quando existe acolhimento, reconhecimento, flexibilidade, companheirismo, partilha, cumplicidade e respeito dentro do ambiente de trabalho, o profissional não se deixa levar apenas pela tentação financeira. Uma pessoa não abandona a própria família por dinheiro ou por qualquer outra oportunidade, desde que haja amor.

O líder é a pessoa responsável por tornar a rotina agradável. É quem deve ser o apoio para o profissional, tanto em suas questões dentro da empresa, quanto fora – quando for solicitado.

O líder deve manter o ambiente de trabalho amistoso e colaborativo; deve proporcionar segurança para todos poderem expor suas ideias e dificuldades; deve estimular o sentimento de cuidado mútuo, uma vez que os profissionais passam mais tempo dentro das fábricas do que em suas próprias casas, com seus entes queridos. Então, não seria errado dizer que os colegas de profissão são uma segunda família.

Agora, podemos dizer que os líderes de hoje estão preparados para isso? Podemos dizer que eles entendem o que é liderança e o que esse trabalho envolve realmente?

Encontro pessoas totalmente despreparadas para definir estratégias de equipe, como por exemplo, identificar perfis pessoais para cada função. Temos pessoas tomadas pelos seus egos e que têm dificuldade de relacionamento, tanto com chefias quanto com subordinados. Temos líderes sem postura, sem estrutura física e emocional, sem noção da importância dessa posição, sem empatia e que não se importam realmente com nada que não seja o resultado da produção. Desse modo, é impossível reter talentos.

Para tratarmos com uma equipe de “chão de fábrica”, é importante entender que a vida deles fora da empresa geralmente é de sacrifícios, com problemas que parecem acontecer apenas em novelas globais. São pessoas muito sensíveis e aqueles momentos de produtividade no trabalho podem ser o único refúgio de paz que eles têm, única oportunidade em que sentem que fazem alguma diferença no mundo.

Supervisores e coordenadores geralmente vêm daquele “chão de fábrica”, ou seja, histórias similares, mas agora com algum poder nas mãos. É preciso orientação, reforço positivo, apoio e acompanhamento, para que eles possam se desenvolver como líderes que também apoiam suas equipes, mas que continuam percorrendo o caminho do desenvolvimento profissional e pessoal, procurando melhorar a própria qualificação e superar eventuais vícios.

Gerentes e diretores precisam ter empatia por essas pessoas que são a base da produção. São humanos, não números nem máquinas, que simplesmente obedecem e se sacrificam fisicamente para executar atividades que vão lhes tirar alguns anos de vida, em troca de alcançar metas de produção para que o resultado seja glória apenas dessas chefias. Não basta dinheiro para estimular essas pessoas a executarem essas atividades. É preciso amor ao trabalho e vontade de colaborar para um mundo melhor – esse é o mínimo para conseguirem cumprir essas funções diariamente.

Hoje, o descrito acima é apenas utopia. São raros os casos de líderes que pensam assim, e a rotatividade de funcionários continua grande e constante, sendo prejuízo para as empresas e para a sociedade. Pessoas realizadas e compreendidas levam isso para dentro das suas casas, contagiando também suas famílias e definitivamente, colaborando para um mundo melhor.

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Direitos autorais da imagem de capa: dotshock / 123RF Imagens





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