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É a última vez que te respondo

é a última vez que te respondo

Tava olhando pro meu celular e vi a data. Antes disso você era presente, tava ali tentando, tentando, eu tentava também e tinha quase certeza de que a gente iria conseguir quando você me chamou pra ver um filme ruim. Ri da escolha e ri do filme e ri na hora em que você deitou a cabeça no meu ombro porque eu sempre espero por esse momento.



Eu sempre deixo as pernas cruzadas e ponho as mãos estrategicamente semi abertas nas coxas. Braços encostados e eu suo, nem vejo o filme direito, esperando pra ver se você me dá a mão e encosta a cabeça em mim. Você fez tudo isso e nem tem muito tempo, então quando foi que você desistiu de mim?

Foi naquela festa junina que você deixou de ir pra ver seus pais. Foi naquele musical que eu tava louco pra te levar, mas você tinha que ir jantar com uma amiga sua. Foi no cinema da outra semana que você só me avisou que não ia dar no dia seguinte. E de lá pra cá eu sou remédio, você me toma em doses homeopáticas, você me deixa num cantinho e esquece a bula, esquece de seguir de tempos e tempos até que para de me tomar.

Tava olhando pro celular e lembrando de tudo. Tá bem, não foi tão longa assim a coisa toda, mas ainda assim foi algum coisa. Teve o procedimento padrão do vinho e da conchinha, de acordar mais cedo pra tomar café, de analisar as minhas tatuagens e perguntar se eu não queria viajar com você mais tarde. E é isso que mata: você tinha planos. Ou parecia ter. Quando foi que você desistiu deles e não me avisou? Fico com a impressão de que comprei as passagens e vou embora sozinho. O banco do lado fica vago, no seu lugar não vai mais ninguém. Melhor pra mim, posso deitar no banco todo. Melhor pra mim, é o que eu continuo dizendo.


Ontem cê mandou algo e não respondeu ainda. Favor não alimentar minhas esperanças, se você soubesse como o animal que mora aqui reage, você leria a placa. Mas você alimenta. De tempos em tempos, sem tempo o bastante pra ficar. Não é sobre mim ou sobre você, é só mais uma história com ponta solta e um final – se é que eu posso chamar de final – sem fim. Você diz oi e eu respondo, emplaco um assunto e você ri. Morremos nas apresentações quando eu achava que já te conhecia.

Digito alguma coisa e tento não pensar nisso. Não importa mais agora, já segui em frente, só tenho que devolver teu casaco e repetir cinco vezes no espelho antes de sair de casa que eu não quero mais, tô bem sem você, juro. É só que eu queria ter tido algo, ponto final, nada fora do comum. Daí você pergunta algo. E eu reluto, mas respondo. Três dias depois você pergunta de novo, demoro um pouco e respondo. Não consigo disfarçar o imediatismo. Agora já tem três dias que você disse que já volta e não voltou, acho que era um recado. E agora o celular vibra, tudo novo de novo, não sei o que faço, tá tarde, eu preciso dormir. E agora eu encaro a tela e digito e apago, digito e apago. Resolvo responder, mas amanhã eu falo cinco vezes no espelho de novo pra ver se dá jeito. Desligo a internet e deito satisfeito. E, de novo, eu prometo pra mim mesmo que eu nunca mais vou te responder. Até a manhã seguinte.

 

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Escrito por Daniel Bovolento – Via Entre Todas as Coisas

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