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“e aí? quando foi a última vez que você se deu conta de si mesmo?”

Hoje pela tarde comecei a analisar quantas vezes aconteceram situações cotidianas que me fizeram conflitar a realidade das minhas ações com a imagem que eu tenho de mim mesma.

São besteiras que tocam a gente e não nos esquecemos mais delas.



A minha primeira vez aconteceu há uns 13 anos, quando eu estava na fila do supermercado (a fila dita “rápida”, de poucos volumes, que tinha 40 pessoas na minha frente e andava mais devagar que as outras), na qual fiquei enclausurada num corredor, cercada de coisas que podiam despertar a minha fome ou meu interesse, enquanto a fila “rápida” demorava para andar.

Olhei para a capa de uma revista de moda e vi uma menina com cara de criança, toda maquiada, roupa e pose sensuais, ao lado da manchete ousada! Lembro que fiquei indignada! Como podem colocar uma criança numa situação destas! Eu me lembro que eu olhava para as capas dessas revistas e imaginava se, quando eu crescesse, eu me pareceria com alguma daquelas mulheronas, se o formato do meu rosto seria daquele jeito, se meu cabelo poderia ser parecido com aquele… E hoje em dia eu vejo crianças! Daí mergulhei na minha indignação e andei mais um pouco. Vi outra revista, concorrente daquela, com a mesma situação na capa. Realmente o mundo está mudando, daqui há pouco vamos precisar colocar anticoncepcional nas mamadeiras, meu Deus!

E de repente, não sei por qual motivo, parei pra pensar na idade que as antigas modelos das capas de revista tinham quando eu me espelhava nelas – por volta de 16 a 18 anos, afinal essa sempre foi a idade em que as modelos começavam a se destacar na mídia. Daí olhei pra trás pra ver que idade eu achava que aquelas crianças tinham, e foi aí a minha surpresa: elas aparentavam ter 17 ou 18 anos. PERAÍ! TEM ALGUMA COISA ERRADA!


Eu envelheci! Eu me enxergava ainda como mais nova que aquelas capas de revista, aquilo sempre foi um objetivo futuro, que eu não tinha alcançado e, de repente, eu percebi que já havia passado por elas há muito tempo, e hoje elas eram vistas como crianças.

Não sei em que momento da vida eu parei de enxergar o meu desenvolvimento como pessoa, mas essa situação me arrancou de lá de trás e me trouxe para o momento presente. Confesso que saí de lá meio frustrada, percebi que eu nunca tinha me enxergado como as capas de revista justamente porque eu jamais seria como elas. E fui embora pra casa afogar as mágoas comendo pizza com Coca-cola…

Fiquei estacionada neste outro momento por exatamente 5 anos. Pouco depois do meu aniversário dos 30, comecei a pensar em mudar de emprego. Surgiu, então, a oportunidade de fazer uma entrevista em outra empresa. Quando fui ao meu guarda-roupa para separar o traje que usaria no dia da seleção, fui arrancada novamente da fila do supermercado e trazida para o presente: meu Deus! Eu me transformei naquilo que eu mais criticava!

Quando eu era adolescente e andava pelas ruas, via mulheres por volta dos 35 anos vestidas de micro-saias jeans, bota de cano alto, blusinha de um ombro só, e falava comigo mesma: quando eu chegar nessa idade, usarei roupas que condizem com uma senhora! Ainda está se achando menininha, não percebe que esses trajes não combinam com a idade e as ruguinhas no pescoço?


Aos 18 com uma mentalidade totalmente imatura, equivocada e preconceituosa, 35 anos para mim era estar velho…

Foi quando eu me defrontei com meu guarda-roupa: vários modelos de tênis pretos, calças jeans rasgadas ou desbotadas e camisetas de bandas de rock. Percebi que, como meu trabalho dentro das fábricas exigia que eu andasse de jeans, bota de segurança, capacete e camisa da fábrica, eu só usava minhas roupas aos finais de semana, e no programa com amigos sempre saí com as mesmas roupas desde os 18 anos! Eu me transformei na tiazona que eu achava descabida! Pior ainda, a única calça social que eu tinha era a mesma que usei na entrevista para o emprego no qual eu já me encontrava há 6 anos.

Sabem o que isso significa? TARDE NO SHOPPING!!! E lá fui eu andar pelas lojas atrás de, ao menos, 2 calças sociais e 5 camisas (para usar em uma semana, pois o novo trabalho exigiria isso).

No meio das compras, olhei dois braços cheios de roupas para experimentar: todas pretas, uma calça social e 3 jeans, 2 camisas e 4 camisetas. VOLTEI TUDO!

Enxerguei que se eu não educasse meu gosto para ser compatível com a imagem que eu queria ter e de acordo com a postura que meu trabalho exigiria, essa empreitada não teria sucesso. Voltei pro começo da loja e andei tudo novamente.

Agora, me expliquem: POR QUE MULHERES NA CASA DOS 40 ANOS ADORAM CAMISAS DE CETIM FLORAL?? Na minha cabeça, era “coisa de velho”!
Passei mais de uma hora rodando as araras e consegui 4 camisas “mais ou menos lisas” – era tudo o que a loja oferecia nesse quesito. Deixei as calças jeans de volta no lugar e consegui “pescar” mais uma calça social para experimentar.

Agora, querem saber o pior? No dia da entrevista eu usei exatamente a calça antiga – sei lá, ela era mais confortável, tinha o formato do meu corpo, me dava mais segurança. E CONSEGUI O EMPREGO.

Parando para pensar, talvez essa calça deva realmente ser guardada como relíquia e usada em todas as minhas entrevistas, ela dá sorte por algum motivo. Só sai do guarda-roupa para isso e definitivamente tem sucesso no seu objetivo. É uma calça vencedora! Vou guardá-la mesmo quando não servir mais ou rasgar, talvez pendurá-la na parede do escritório: a calça que me ajudou a chegar até aqui! Ela merece esse reconhecimento…

O terceiro momento, que me tirou das camisas florais no shopping foi há 6 anos, quando me vi com frio na barriga por pensar em abrir uma conta no banco como “pessoa-jurídica”. ISSO É COISA DE ADULTO! EU NÃO TENHO SABEDORIA SUFICIENTE PARA RESPONDER POR UMA CONTA PESSOA-JURÍDICA!!

Gerencio operações comerciais de multinacionais pelo Nordeste há 14 anos, MAS ABRIR UMA CONTA PESSOA-JURÍDICA, isso eu não consigo! Está acima da minha capacidade…

A nossa mente cria referências, marcos de vida relacionados a fases a serem alcançadas, contudo parece que é algo que se encontra sempre lá na frente, no futuro.

Realmente, é engraçado como vamos nos dando conta de que já crescemos, já conseguimos, e ainda nos sentimos desprotegidos e fracos em situações bobas, mas que nos mostram que chegamos mais longe do que imaginávamos chegar.”

 

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Direitos autorais da imagem de capa: citalliance / 123RF Imagens

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