Reflexão

“É impossível ser feliz sozinho” — Mário Sérgio Cortella

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capa site E impossivel ser feliz sozinho – Mario Sergio Cortella

Definir felicidade está entre as coisas mais complexas que existem, sendo necessário, muitas vezes, recorrer ao que filósofos e outros especialistas dizem sobre isso.

Para você, o que é felicidade? Pode ser um sentimento, um conjunto de sensações, um momento em particular guardado na memória, ações, pessoas e até objetos. Ser feliz pode envolver processos, uma cadeia de eventos que culminam no momento em que me sinto inundar por aquela emoção, por aquela constatação.

Quando analisamos de maneira frívola, podemos enxergar a felicidade como um objeto de desejo, algo que perseguimos a vida inteira, desesperadamente, para sentir mais uma vez, e outra, e outra, aquela plenitude. Perseguimos a felicidade justamente porque não a temos constantemente, caso contrário não nos faria falta nem mesmo seria considerada tão importante.

Muitos especialistas, coaches e até anônimos podem ter suas concepções sobre felicidade. Para o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella, a felicidade pode ser considerada uma intensa vibração. “É o momento em que sinto a vida em plenitude dentro de mim e quero que aquilo se eternize. Felicidade é a capacidade de ser inundado por uma alegria imensa por aquele instante, por aquela situação”.

O filósofo defende que a felicidade não é (e nem pode ser) um estado contínuo, sendo apenas eventual, episódica. “É você sentir a vida vibrando, seja num abraço, seja na realização de uma obra, seja numa situação em que seu time vence, seja porque algo que você fez deu certo, seja porque você ouviu algo que quis ouvir”, explica. Mesmo sendo algo efêmero e perene, caracteriza-se como extremamente importante em nossa sociedade, segundo Cortella.

“Nós só temos a noção de felicidade pela carência. Se eu tivesse a felicidade como algo contínuo, eu não a perceberia. Nós só sentimos a felicidade porque ela não é contínua, isto é, ela não é o que acontece o tempo todo, de todos os modos”, explica o filósofo. Além dessa constante sensação de perenidade, a felicidade também só é sentida quando compartilhada.

Para Cortella, a felicidade é um sentimento, uma sensação posterior à companhia, à presença de demais indivíduos. Ele ainda explica que não é possível ser feliz sozinho, assim como não é possível viver do início ao fim da vida sozinho. “Felicidade, pelo óbvio, só acontece com alguém que vive, e viver é viver com outros e outras, e como não é possível viver sozinho, a possibilidade da felicidade isolada, solitária é nenhuma”, explica.

Ele defende que só seria feliz sozinho caso as pessoas fossem capazes de viver solitárias, e que esse é um processo impossível, principalmente porque somos seres altamente sociáveis. “Mesmo na literatura, como Robinson Crusoé, por exemplo, que lida com o homem que está só, mas ele está só depois de ter convivido com os outros”, comenta.

Dessa forma, ainda que solitário, o personagem acessa em sua memória, com frequência, os momentos partilhados com outras pessoas, fragmentos da sua história, o convívio que teve com outros e outras. “Não há história de ser humano em que ele tenha sido sozinho da sua geração até o término. Se assim não há, não há possibilidade de ser feliz sozinho”, finaliza o filósofo.

Perseguir a felicidade, ainda que ela venha espaçada, em pequenas amostras, traduz justamente a nossa necessidade de viver. A vida não é apenas sentida, mas exercida em todos os aspectos por nós, o que implica em constantemente transitar entre os extremos das sensações e das narrativas em busca de equilíbrio, mas também de experiências.

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