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“É obrigação respeitar”, diz mulher trans após superar rejeição e ditadura

E obrigacao respeitar diz mulher trans apos superar rejeicao e ditadura
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“Minha casa é como um templo, só recebo quem eu confio. Sou muito de energia”. O cuidado que Suham Torres de Albuquerque, mulher trans alagoana de 69 anos, tem com sua casa é o mesmo que adotou para a sua vida. Foi assim que ela conseguiu resistir ao preconceito, à ditadura militar e à baixa expectativa de vida para travestis e transgêneros, que é de apenas 35 anos.

Nascida em 8 de abril de 1952, atualmente leva uma vida tranquila em seu apartamento no Conjunto José Tenório, em Maceió, com quase 10 cães e gatos. Um dos cômodos foi adaptado e funciona como ateliê para suas pinturas. Dançarina de flamenco e artista plástica, Suham já foi cabeleireira, babá e camareira de hotel.

“Sabe, as pessoas não têm que aceitar, mas é obrigação respeitar”, reflete sobre o preconceito ainda existente nos dias atuais.

Preconceito que viveu em sua pior forma durante a ditadura militar no Brasil. Nessa época, ainda adolescente, vivia na casa dos pais em Maceió e enfrentou em silêncio a rejeição familiar e os ataques de quem era a favor do governo ditatorial.

“Era muita repressão, as pessoas se relacionavam escondidas. Também houve muitas mortes, violência, sumia muita gente. Muitos jornalistas, homossexuais, travestis, integrantes de movimentos sociais desapareciam. Até hoje ninguém sabe onde estão seus corpos. Lembro que um grupo de estudantes de uma faculdade, que lutava por direitos, que desapareceu”, comenta Suham.

Uma memória amarga que a artista carrega é a de que muitas pessoas LGBTQIA+ eram tratadas como se tivessem transtornos psiquiátricos. Quando era jovem, chegou a ser levada a médicos que a fizeram tomar diversos medicamentos para “curar o transtorno”.

“Nos meus 14 anos, quando minha sexualidade e identidade estavam afloradas, fui a uma psiquiatra e ela disse na minha cara que eu nunca seria uma mulher. Na época, pessoas afeminadas e mulheres trans eram jogadas em manicômios, porque as famílias achavam que elas tinham problemas mentais, que não prestavam”, relata.

Em uma época em que não havia a discussão sobre a transexualidade, tudo era mais difícil. Mas a necessidade de viver sua verdade a levou para outras cidades, longe do preconceito da família. Morou em Salvador e São Paulo.

Nos anos 80, quando Suham estava indo fazer um teste em uma escola para trabalhar como auxiliar de datilografia em São Paulo, foi xingada por policiais em uma blitz perto do Viaduto do Chá. Ela estava na cidade há poucos meses e foi com uma amiga até a escola, mas no caminho havia um carro da polícia revistando quatro homens e elas também foram paradas.

“Os policiais perguntaram se minha carteira de profissão estava preenchida. Naquela época, estar com carteira assinada era indício de que a pessoa era cidadã de bem. Respondi que não, que estava há seis meses na cidade. Depois que eu disse isso, eles me chamaram de gayzinho, viadinho”, conta.

A amiga que estava com ela ligou para o namorado, um policial civil, e conseguiu que ela fosse liberada. Mas depois disso o medo virou companheiro constante nas ruas de São Paulo. “Se eu fosse pega pela segunda vez, seria presa por vadiagem. Mas tudo serviu de experiência, de bagagem”.

Identidade, família e um casamento de 17 anos

O termo “transgênero” ou “trans” se refere a uma pessoa cuja identidade de gênero não corresponde à de seu sexo de nascimento. Diferentemente da orientação sexual, que se refere às formas de amar e a atração que as pessoas sentem por outras.

Aos oito anos, quando Suham ainda era tratada como menino em casa, viu na imagem refletida no espelho uma cigana espanhola com castanholas a encarando, como em uma visão. Dias depois, ela estava em um dos cômodos da casa e ouviu uma voz chamando seu nome atual e dizendo que esse nome seria muito reconhecido.

Enquanto relata o episódio, ela chora. “Muitas coisas vieram à tona na memória, muitas lembranças. Às vezes aciono essas memórias e não me controlo, me emociono”.

Dos 9 irmãos, cinco ainda estão vivos e há mais de 50 sobrinhos. Mas somente sua irmã gêmea e dois sobrinhos falam com ela, o restante da família se afastou quando ela se declarou uma pessoa transgênero. A família grande, de classe média, não soube lidar com o preconceito. Pai e mãe já faleceram. Seu pai era duro, inflexível, mas a mãe era mais tolerante, compreensiva, não a rejeitou.

Desde criança, Suham se identifica como mulher. Ela lembra que quando ia tomar banho com a irmã, falava para a mãe que queria um corpo igual ao dela. No seu vocabulário infantil, referia-se à vagina que não via no próprio corpo.

“A reprovação já vem desde quando eu me entendo por gente. Eu não imaginava o tipo de vida, as recusas, as atrocidades que eu iria passar com minha identidade”, lembra a artista.

Cursou ensino médio em uma escola pública localizada no Farol, onde atualmente funciona uma universidade. Com mais dois amigos afeminados, foi vítima de bullying e transfobia. Os meninos da turma jogavam neles lixo e papel, os xingavam.

Da adolescência para a juventude, Suham entendeu que estar entre sua família a fazia mal e decidiu se afastar. Foi morar com outra irmã em Salvador, onde trabalhava em um restaurante de parentes só para pagar estadia e comida, não recebia salário.

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Direitos autorais: Reprodução/Arquivo pessoal.

Anos mais tarde, por volta de 1986, a dançarina conheceu um rapaz, negro, alto, como ela mesma descreve. A paixão arrebatadora levou a um casamento de 17 anos, que terminou por ciúmes que ela tinha dele. O amado já faleceu.

“Ele me aceitava, me assumia para os amigos e para os familiares. Os pais dele gostavam de mim. A gente terminou porque brigava constantemente. Eu tinha muitos ciúmes, mas aceitava ele ter relacionamentos com outras mulheres. Tinha vez que eu arrancava as roupas dele na hora das discussões, gritava, esperneava. Ele nunca encostou a mão em mim”, conta.

Mesmo amando, a iniciativa de terminar o relacionamento foi dela. “Ainda bem que fui eu que terminei. Quando é a outra pessoa que termina, eu fico muito triste, abalada, chateada”.

“A própria sociedade nos joga no lixo”

Em São Paulo, procurou diversos empregos e conseguiu oportunidade em um dos melhores hotéis da cidade à época, o hotel Morumbi, que fazia parte de uma rede francesa. “A vida era muito cara. Às vezes eu não tinha condições para comprar almoço”.

Ela lembra que a solidariedade das pessoas que encontrou pelo caminho foi a força que precisava para manter sua dignidade, sustentar-se com dinheiro do trabalho formal.

“Eu fazia um curso de cabeleireira pela manhã e ia direto para o trabalho. Antes de trabalhar, eu passava nos quartos, vasculhava o resto do almoço dos hóspedes e almoçava. Uma pessoa viu o que eu fazia e foi falar na gerência. O gerente foi até mim e me perguntou, eu fui sincera, disse que não tinha condições. Ele foi super compreensivo e disse que eu teria almoço na hora que eu chegasse. Graças a Deus tive muito apoio”, relata.

A ex-profissional de hotelaria sabe que muitas pessoas trans não tiveram a mesma sorte que ela. Reflexiva, avalia que o trabalho foi um dos motivos para que ela não fosse parar na prostituição.

A própria sociedade nos joga no lixo. Conheço meninas que se prostituem porque não encontram oportunidade. Graças a Deus não tive necessidade de me prostituir. Na minha vida foi só trabalho, trabalho e trabalho”, afirma.

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Direitos autorais: Reprodução/Arquivo pessoal.

Durante a jornada, também trabalhou como babá. Com o dinheiro da hotelaria, pagava cursos. Logo depois que se formou cabeleireira, Suham foi trabalhar em um salão de beleza nos Jardins, em São Paulo. Também fez curso de tarologia.

“Eu ganhava dinheiro com cabelo, ganhava dinheiro com tarô, as clientes adoravam ver as cartas. Fiz o curso para cabeleireira em uma das melhores escolas de São Paulo, a Escola Teruya”, lembra.

Foram cerca de 30 anos trabalhando em salão de beleza, fazendo cabelos de pessoas anônimas e personalidades como as cantoras Ângela Maria e Rita Cadillac.

Agora ex-cabeleireira, faz mais de cinco anos que se profissionalizou como artista plástica. Fez e ainda faz cursos de pintura e danças ciganas. A veia artística a acompanha desde a infância. Sempre desenhou e hoje pinta personagens, anatomia humana, realismo. Em um quadro simples, Suham cobra em torno de R$ 500.

A artista também já fez pinturas em troféus para um evento realizado pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos de Alagoas, em 2019. A viúva de Marielle Franco, Mônica Benício, recebeu um desses prêmios com o rosto da ex-vereadora do Rio de Janeiro, assassinada por milicianos com seu motorista, Anderson Gomes, em março de 2018.

A sabedoria do tempo

Eclética, ela acredita que música é o momento. Gosta mais de músicas flamencas “porque tem algo a ver comigo”, mas ouve muito Maria Bethânia, Ângela Maria, Gal Costa, Maria Odette e Caetano Veloso, que conheceu pessoalmente nos anos 80, quando morava em Salvador.

“Conheci o Caetano em um bar movimentado em Salvador, o TukBar. O conheci pessoalmente por meio de minhas amigas. Do bar, a turma foi para a praia fazer uma serenata, um luau. Inesquecível”, recorda.

Em quase toda a conversa, os lapsos de memória insistem em lembrar que o tempo passou. “As vezes me dá um branco, eu esqueço”, explica Suham ao tentar recordar o nome de uma outra cantora que gosta muito de ouvir.

Mas a postura ainda é impecável, sentada em uma cadeira de balanço de madeira lustrosa, bem maquiada, com duas pequenas argolas nas orelhas, anéis nos dedos das duas mãos, vestindo um vestido de tie dye e um colar com diversos pingentes.

“Eu aceitei a velhice. Sabe quando a gente se prepara para a velhice? É isso. Vivi a juventude, mesmo sendo tão difícil. Às vezes umas amigas minhas dizem que estão envelhecendo, as rugas aparecendo, o corpo se desgastando, mas eu me aceito. Todos os dias me olho no espelho e digo ‘é natural, eu me aceito'”, afirma.

Ainda assim, o tempo cobra seu preço. Ela perdeu completamente a visão do olho esquerdo porque tomou diversos remédios em um período turbulento da vida. Segundo o médico que a atendeu, Suham tinha 75% da visão, que foi perdendo gradualmente. Além disso, tem outras limitações físicas e emocionais.

“Para me agachar, eu tenho que segurar em alguma coisa. Tenho muitas carências. Sinto falta da minha irmã, dos meus sobrinhos, da família. Mas eu tenho que viver sem esse lado, porque eu vivi todos esses anos ausente da minha família”, lamenta.

De volta a Maceió desde 2005, a artista plástica nunca mais quis mudar de cidade. Convive bem com a vizinhança do condomínio e tem uma amiga que sempre a ajuda. Entre 2015 e 2016, Suham viveu um período depressivo e quase tentou suicídio, mas conseguiu se recuperar.

“Cheguei nessa idade porque tive tolerância. Quando a gente aprende a ter tolerância, o nosso caminho se abre, a vida fica mais fácil. A pessoa que tem tolerância não briga por pequenas coisas”, ensina, com a sabedoria de quem já passou por muita coisa.

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Direitos autorais: Reprodução/Arquivo pessoal.

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