E quando a criança especial é seu filho(a)?

Vivemos em um período sem precedentes na história da humanidade. Os avanços tecnológicos proporcionam uma agilidade em quase todos os setores da vida diária.

O tempo nunca foi tão precioso na regulamentação das atividades humanas. Chega a ser assustadora a velocidade da comunicação e das informações. Tudo a um clique do computador, do tablet ou do celular.

A televisão, a passos largos, estimula o consumo de produtos recém-criados pelas fábricas da pós-modernidade. Tudo muito impressionante, para quem cresceu em um período em que os programas televisivos eram formatados em um único plano, traziam cenas monótonas. A vida na cidade era retratada com cenas bucólicas, pouco distantes da vida no campo. A compreensão dos periódicos exigia bem pouco da nossa complexidade neurológica. Ver e ouvir se entrelaçavam num único ritmo.

O avanço das tecnologias de comunicação sofisticou, e muito, a produção musical. A malha tecnológica entrelaça o diálogo melódico de vários instrumentos em uma única música.  Passamos, então, a escutar o labor de cordas, sopros e percussão entrelaçados à voz do cantor.  Milagre sonoro nas comunicações.

A paisagem bucólica dos centros urbanos cedeu lugar a um emblemático cenário tecnológico.

Uma profusão de informação sensorial nos convida ao consumo dos últimos lançamentos no mercado.

A via pública compõe-se de um espetáculo de imagens, letreiros de LED, publicidades estampadas em veículos coletivos, panfletos lustrosos para informar, de maneira encantadora, o consumidor. Quando o produto é muito inovador tem direito a espetáculo aéreo, pirotecnia.

A criatividade das comunicações visuais compõe um show multicolorido que impressionam, e por vezes, embaralham o discernimento.

O arsenal das comunicações, igualmente, estão sempre se reinventando para divulgar a última produção da indústria tecnológica.

A constante estimulação dos sentidos humanos provoca alterações na sua forma de reagir aos impactos externos. A acústica neurológica se adapta, não sem alterar todas as demais formas de percepção do mundo.

Haja sensibilidade para sobreviver a esta nova configuração do mundo pós-moderno!

O que poucos percebem é que os estímulos sensoriais da pós-modernidade modificaram a forma do homem em perceber o meio. A interação homem-sociedade não é mais a mesma. Tudo se renova!

Nunca as salas de aula foram tão repletas de crianças portadoras de novas características psicoafetivas. A plasticidade neuronal adapta-se às formas de consumo, que marcam a chamada “Nova Era”.

Entre o TDHA e o Transtorno do Espectro Autista surgem muitas outras formas de resposta ao mundo contemporâneo. A primeira (TDHA) revela uma personalidade totalmente conectada com este universo externo e, portanto, com dificuldades para conectar-se com si mesma. A segunda (Transtorno do Espectro Autista) revela uma personalidade extremamente introspectiva, com um universo particular ativo e bem mais atraente do que o mundo externo.

Só percebemos que não somos mais os mesmos quando alguém no nosso meio familiar chora, grita e pede socorro.

Foi assim comigo. O Divino nos oferece presentes desafiadores também. Minha filha, logo nos primeiros dias de vida, com seu choro estridente, revelou-me o quanto sua sensibilidade estava acurada com a nova roupagem humana.

Não foi tarefa fácil decodificar suas súplicas pessoais, traduzidas pelo choro sistemático. Em meio à adaptação de sua chegada na vida familiar, iniciamos uma série de exames. Teste do pezinho, acuidade auditiva, reflexo de fundo de olho, ultrassonografia gástrica e por fim, já no sexto mês de vida, nos aliamos ao neuropediatra. Foi com imenso alívio que esse profissional nos tranquilizou quanto à “normalidade” da nossa criança.

A essa altura, passeios, festas familiares ou uma simples ida ao supermercado nos exigia uma dose extra de paciência.

Não por causa do choro atípico do bebê, mas pelo incômodo que o ruído causava nas pessoas. Sempre havia alguém com um conselho ou uma receita para acalmar o choro.

Desenvolvi a habilidade de acalmar o incômodo das pessoas, ouvindo atentamente às sugestões. Diga-se de passagem, nunca coloquei nenhuma delas em prática. Mas ouvia com paciência, para que a pessoa incomodada evadisse de nossa companhia.

Com o avançar dos meses, cheguei à conclusão de que voltar para a sala de aula também seria preciso adiar. Exonerei-me do cargo e segui viagem, tentando oferecer a segurança de que minha bebê precisava.

Algumas tentativas foram vitoriosas, outras nem tanto. Mas o certo é que, aos poucos, aprendo mais sobre a educação dos tempos modernos. Aqui refiro-me à educação emocional, resiliência ante os desafios existenciais.

Hoje ela é uma criança como outra qualquer de sua época, dotada de uma malha sensorial que nos exige cuidados e direcionamento. Afinal, nada mais é como antigamente.

Gratidão a Deus pelos constantes desafios, que nos tornam pessoas alertas e resilientes.


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: Luiz Paulo from Pexels



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