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E SE NINGUÉM ESTIVESSE VENDO?

“O que você faz quando ninguém te vê fazendo?”


Esta frase é de uma música que ouvi na voz de Dinho Ouro Preto junto com o Capital Inicial.

Vivemos tempo de extrema exposição, e querem saber de uma verdade? Se expor vicia!

Tudo que fazemos pode ser exposto através de dezenas de ferramentas virtuais, ou melhor, parece-me que estamos vivendo exatamente PARA se expor.


A exposição não é apenas parte do processo – é o processo em si.

Vejo gente frustrada quando não pode expor seu momento, seu dia, seu prato de comida, sua presença em um restaurante, seu check in de “estou aqui” na academia, no trabalho, na casa da vizinha. Parece-me um grito de “estou aqui”, ou de “eu existo”.


Sou parte deste processo, porém não me exponho em santa paz. Vivo perseguida pela autocrítica e pela saudade do tempo no qual eu viajava sem sequer carregar o aparelho celular. Fiz viagens maravilhosas nos tempos em que o Facebook sequer existia e fui militante em muitas causas em total silêncio virtual.

Todos os dias eu vejo em meu feed de notícias gente de todos os tipos expondo o egocentrismo de cada um e também vejo aquelas desconfortáveis lembranças dos meus momentos de egocentrismo. Em um destes dias eu me perguntei:

-E se nada disso existisse?

-E se ninguém pudesse ver ou saber nada sobre a minha vida, sobre os meus passos, sobre a minha história?

-E se eu voltasse ao tempo no qual apenas os colunistas sociais tinham o poder de expor quem quisessem em uma ou duas páginas do jornal de domingo?

Hoje somos todos colunistas.

Imaginamos ter o poder de nos transformar em personalidades famosas e podemos assim ter os nossos súditos. Somos os “donos da coluna” ou até mesmo “do jornal”.

Postamos fotos tratadas em vinte filtros diferentes. Escrevemos textões sobre nós mesmos e sobre como e o quanto somos sensacionais.

Somos perfeitos, lindos, gratos, caridosos, militantes em causas nobres e fazemos questão de, o tempo todo, criticarmos quem não está no mesmo padrão de quase divindade que nos envolve. Um manto de realeza é o que temos, e um povo de joelhos nos adorando é o que queremos.

Passamos boa parte do nosso tempo aguardando as visualizações, os coraçõezinhos ou pelo menos os polegares para cima. Queremos os comentários, mas somente os que digam o que queremos ouvir.

Colecionamos inimigos em batalhas violentas quando eles nos frustram porque não dizem o que queremos ouvir e gastamos muitas vezes mais tempo e energia com aquele que, com ou sem intenção, derruba o nosso castelo e o nosso trono tão bem construído sob o alicerce do mundo virtual.

O mundo virtual é falso meus caros leitores.

O mundo virtual diz nada sobre a nossa verdade.

Os filtros que usamos não mascaram a imagem que é refletida no espelho todas as manhãs quando acordamos e as nossas dores e amores só podem ser vividas no mundo real, este mundo que insiste em aparecer por mais que tentemos mascará-lo.

Talvez haja mais vida, mais amor e mais paz onde ainda habitam seres humanos livres de seu próprio colunismo social.

Talvez haja mais valor na caridade exercida em silêncio, na militância sem aplausos, na amizade que nunca ninguém viu nas redes sociais.

Eu talvez ainda mantenha “uma certa” sanidade porque a vida me presenteou com uma grande amiga, talvez uma das melhores que tenho, e ela não tem sequer uma conta no Facebook. Quando eu a encontro, ela me traz para o mundo real e lembra-me de como somos libertos quando estamos desconectados. Deixo aqui meu agradecimento a ela.

E no fim das contas, sinto muito frustrar-lhes mas, o que vale é o que você faz quando ninguém está vendo.





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