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Cachê milionário a nomes do sertanejo no São João revolta forrozeiros no Nordeste; veja valores

Cachês milionários pagos a nomes do sertanejo em festas de São João provocam revolta entre forrozeiros no Nordeste

Avatar De Ana CarolineAna CarolineEconomia09/06/2026 às 13:42 09/06/2026 às 13:47

Cachê Milionário A Nomes Do Sertanejo No São João Revolta Forrozeiros No Nordeste; Veja Valores
Foto: Reprodução / Instagram / @gusttavolima - @wesleysafadao

O pagamento de cachês milionários a artistas sertanejos, enquanto nomes tradicionais do forró enfrentam dificuldades nas negociações, virou motivo de críticas entre artistas e parte do público nordestino que acompanha as festas juninas.

A cobrança principal é pela valorização de cantores e bandas regionais, especialmente em eventos ligados diretamente à cultura do Nordeste.

O debate acontece em meio ao movimento de órgãos de controle para tentar reduzir gastos públicos com a chamada “farra dos cachês”. Esse cenário fez com que prefeituras nordestinas adotassem mais cautela na hora de contratar atrações para as festas juninas de 2026.

A discussão sobre a perda de espaço do forró no São João não é nova, mas voltou a ganhar força durante o feriadão de Corpus Christi.

Um dos grandes representantes do ritmo, o cantor paraibano Flávio José, anunciou o cancelamento de aproximadamente 15 apresentações na Bahia. Segundo ele, as prefeituras estariam se recusando a pagar o cachê solicitado para os shows deste ano.

Em nota publicada no Instagram na última quarta-feira, Flávio José criticou a situação e comparou os valores pagos a artistas de outros gêneros:

“Às vésperas da maior festa de manifestação cultural do Nordeste, eu recebo a notícia que o MP da Bahia resolveu diminuir o meu cachê! Enquanto outros artistas que nada têm a ver com forró, como sertanejos, ganham rios de dinheiro”, disse em nota no Instagram na última quarta-feira.

De acordo com o MP-BA, Flávio está cobrando R$ 350 mil por apresentação. O órgão vê problema no reajuste, que seria de 40% em relação ao valor pedido em 2025. Mesmo assim, o montante ainda fica bem abaixo dos cachês pagos a artistas sertanejos escalados para festas juninas em cidades do Nordeste.

Segundo a lista disponível no portal da transparência do MP-BA e separou os dez artistas com os maiores cachês entre 137 prefeituras que já informaram gastos na Bahia. Nenhum deles tem o forró tradicional como principal ritmo.

Confira os valores:

  • Gusttavo Lima – R$ 1,1 milhão
  • Wesley Safadão – R$ 1 milhão
  • Luan Santana / Victor e Léo / João Gomes – R$ 750 mil
  • Nattan / Ana Castela – R$ 700 mil
  • Zé Neto e Cristiano – R$ 670 mil
  • Maiara e Maraisa – R$ 654 mil
  • Leonardo / Bruno e Marrone – R$ 650 mil

Entre os dez artistas listados, apenas três são nordestinos. Dois deles cantam forró estilizado: os cearenses Wesley Safadão e Nattan. Já o pernambucano João Gomes é identificado como forrozeiro.

Esse grupo seleto chega a receber mais de quatro vezes os cachês pagos a nomes históricos do São João, como Alceu Valença, Elba Ramalho e Alcymar Monteiro, que terão valores máximos de R$ 250 mil em apresentações na Bahia.

A posição do MP-BA sobre os cachês

Em 2022, o MP-BA passou a atuar com um portal de transparência dos festejos juninos, cobrando que as prefeituras divulguem publicamente os gastos com artistas e com a estrutura das festas.

Desde então, os valores cresceram de forma expressiva, gerando cobranças de órgãos públicos e até das próprias prefeituras, que já vinham reclamando do aumento dos preços desde o Carnaval deste ano. A alta também teria relação com o grande volume de emendas destinadas ao patrocínio de festas.

Segundo nota do MP-BA, a média dos contratos passou de R$ 200 mil para cerca de R$ 700 mil nos últimos quatro anos. Por causa disso, a recomendação às prefeituras foi que, em 2026, pagassem no máximo o mesmo valor desembolsado no ano passado, acrescido apenas da inflação do período.

Em comunicado, o MP-BA afirmou que as orientações seguem critérios técnicos elaborados junto aos órgãos de controle:

“As recomendações buscam a adequação do contrato às orientações técnicas dos órgãos de controle, construídas a pedido dos próprios gestores municipais, via União dos Municípios da Bahia (UPB)”, disse o MP-BA.

O órgão também sustenta que os preços levam em conta critérios como notoriedade e projeção dos artistas, e que determinadas atrações podem justificar cachês acima da média. No caso de Flávio José, o cantor acabou enquadrado porque elevou o valor em comparação com 2025.

Na nota, o MP-BA informou que enviou recomendações a mais de cem municípios baianos que estariam pagando valores acima do recomendado, incluindo contratações relacionadas ao cantor: “Incluindo aqueles que anunciaram contratações do artista Flávio José pelo valor de R$ 350 mil, um aumento de R$ 100 mil em relação ao ano passado”.

O Ministério Público da Bahia ainda declarou que, com as recomendações feitas às prefeituras e as negociações diretas com empresários e artistas, conseguiu gerar uma economia de quase R$ 19 milhões aos cofres públicos durante os festejos juninos.

Artistas e público defendem os forrozeiros

Depois do desabafo de Flávio José, internautas passaram a defender o cantor e o próprio forró. Nos perfis do artista e também do MP-BA, muitos questionaram por que prefeituras conseguem pagar valores até três vezes maiores a cantores de outros ritmos e regiões, sem os mesmos obstáculos.

Outros artistas também se manifestaram em apoio ao paraibano. O cantor Santanna, outro nome importante do forró raiz nordestino, afirmou que a cultura popular da região estava sendo atacada:

“A cultura popular nordestina está sendo vilipendiada depois desse ataque ao nosso maior nome do forró”, postou o cantor Santanna, outro ícone do forró raiz nordestino.

No fim de maio, Santanna já havia lamentado, em entrevista ao PipocaCast, que festas tradicionais do Nordeste, como a de Campina Grande, na Paraíba, vêm reduzindo cada vez mais a presença de forrozeiros em suas grades. Na ocasião, ele disse: “Eu notava que já existia uma vontade de tirar a gente. Eu, Flávio José…”

Em 2023, Flávio José enfrentou um problema em Campina Grande, quando teve um show encurtado em 30 minutos, supostamente para dar mais tempo à atração seguinte, o sertanejo Gusttavo Lima.

O poeta, cantor e compositor Flávio Leandro publicou um vídeo no sábado e, até ontem, havia recebido mais de 2,4 mil comentários. Na gravação, ele lembrou que centenas de artistas locais recebem valores considerados muito baixos por suas apresentações.

Ao comentar a situação, Flávio Leandro afirmou que a discussão sobre a “farra dos cachês” existe, mas não pode ignorar a realidade de artistas menores:

“Existe a farra dos cachês, sim. É clara, nítida; mas tem uma lista de coisas inconclusas e a maior de todas elas é o piso dos cachês de artistas de bairro, dos trios de forró, de Zé, de Maria, de Pedro e de Chiquinha, que se submetem a cachês humilhantes que roubam sonhos, paz e dignidade. E eu, gente, sinceramente não vejo o Ministério brigando por essa dignidade, da qual depende um número imenso de artistas.”

Somente na Bahia, foram contabilizados 201 cachês inferiores a R$ 1.000 pagos a artistas locais por apresentações em municípios. Entre os registros, uma das contratações tinha valor de apenas R$ 200.

Flávio Leandro também saiu em defesa do valor cobrado por Flávio José, destacando a força de público e a importância do cantor para o São João:

“Ele tem público para lotar qualquer casa de show do país. Acontece que ele próprio filtra a quantidade de apresentações anuais, prova de que tem uma vida financeira resolvida. É lamentável que o filtro necessário do MP não consiga extrair a grandiosidade de Flávio José para o São João e o trate de forma simplista, apenas com números. Isso é absurdo.”

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