Quem é o "Rei do ovo", empresário que entrou para o top 10 dos mais ricos do país
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Quem é o “Rei do ovo”, empresário que entrou para o top 10 dos mais ricos do país

Conhecido como "Rei do ovo", o empresário entrou para o top 10 dos mais ricos do Brasil

Avatar De Ana CarolineAna CarolineEconomia01/09/2026 às 09:18

Ricardo Castellar De Faria
Foto: Divulgação / Governo do Tocantins - Adilvan Nogueira

Ricardo Castellar de Faria, de 51 anos, passou a integrar pela primeira vez o seleto grupo dos dez brasileiros mais ricos, após construir uma fortuna baseada em negócios nos setores de ovos, grãos, fertilizantes e lavanderias industriais.

Na edição de 2026 do ranking da revista Forbes, o patrimônio de Faria é estimado em R$ 35,1 bilhões, valor que o coloca na décima posição entre os maiores bilionários do país.

O empresário apareceu pela primeira vez na lista em 2024, quando possuía uma fortuna calculada em R$ 17,45 bilhões e ocupava a 21ª colocação. No ano seguinte, permaneceu na 21ª posição, embora seu patrimônio tivesse avançado para R$ 19,6 bilhões. Com o crescimento das empresas e a rápida valorização de sua fortuna, Faria passou a ser conhecido como o “rei do ovo”.

O que explica o crescimento da fortuna de Ricardo Faria

Boa parte do salto patrimonial registrado por Faria está relacionada à valorização da Global Eggs. A holding, sediada em Luxemburgo, reúne a Granja Faria, criada pelo empresário em 2006, a produtora norte-americana de ovos Hillandale Farms, adquirida em 2025 por US$ 1,1 bilhão — aproximadamente R$ 5,5 bilhões —, além do espanhol Grupo Hevo, comprado em 2024 por € 120 milhões, o equivalente a cerca de R$ 735 milhões.

Em março deste ano, a gestora norte-americana Warburg Pincus informou que faria um investimento de US$ 1 bilhão na Global Eggs. A operação ocorreu por meio da compra de uma participação minoritária na companhia. A transação atribuiu ao grupo um valor de mercado de US$ 8 bilhões, cerca de R$ 41,6 bilhões conforme a conversão utilizada pela Forbes naquele momento.

A trajetória empresarial de Faria teve início no setor de lavanderias e atualmente também abrange negócios ligados a sementes e fertilizantes. Criada em 1997, a Lavebras foi a primeira companhia bilionária construída pelo empresário. Hoje, além da Global Eggs, ele controla a Insolo, voltada à produção agrícola de grãos, a Fertifar, que atua no segmento de fertilizantes, e a RCF Capital, responsável por concentrar seus investimentos.

Como funciona o método de Ricardo Faria nos negócios

A estratégia de crescimento de Faria está fortemente baseada na aquisição de outras empresas. Engenheiro agrônomo de formação, ele iniciou sua trajetória empresarial em 1997 com a Lavebras, companhia de higienização de têxteis, e passou a consolidar lavanderias regionais até que o negócio fosse adquirido, em 2017, pelo grupo francês Elis. Anos depois, aplicou lógica semelhante na Granja Faria, comprando produtores de ovos. Com o avanço das operações, iniciou o processo de internacionalização por meio da Global Eggs.

A integração das empresas adquiridas é estruturada a partir de uma cultura comum e da permanência de executivos que conhecem as particularidades de cada mercado. Em entrevista concedida em 2020, Faria explicou: “O grande segredo de comprar empresas é ter a capacidade de replicar a cultura”

Em cada aquisição, o empresário procura preservar profissionais que já dominam o funcionamento do negócio e do mercado local. Os gestores responsáveis pelas operações também passam a integrar a sociedade como acionistas, em um modelo no qual a participação está vinculada ao desempenho alcançado.

A Global Eggs ganhou presença internacional especialmente a partir de 2024. Criada em 2018 e sediada em Luxemburgo, a holding adquiriu seis anos depois o grupo espanhol Hevo. Em 2025, realizou sua maior operação até então ao comprar a Hillandale Farms, companhia que figurava entre as cinco maiores produtoras de ovos dos Estados Unidos e possuía aproximadamente 20 milhões de galinhas. Atualmente, o grupo produz cerca de 13 bilhões de ovos por ano e pretende chegar a 15 bilhões de unidades anuais até o final de 2026.

No mercado brasileiro, a Granja Faria ocupa a liderança na produção de ovos comerciais, ovos férteis e pintos de um dia. Para alcançar esse porte, Faria adquiriu seis operações em um intervalo inferior a um ano, em transações que, juntas, movimentaram R$ 507 milhões. A estratégia consistia em comprar produtores locais, preservar equipes experientes em cada região e integrar áreas como compras, tecnologia, processos industriais e distribuição.

Metas consideradas agressivas e acompanhamento constante de indicadores também fazem parte do modelo de administração adotado por Faria. O empresário descreve a cultura do grupo como “paranoica” em relação à execução e ao controle de custos. Atualmente, ele exerce o cargo de executive chairman da Global Eggs e também ocupa a presidência do conselho de administração da Granja Faria.

Da lavanderia à expansão no setor de ovos

A entrada de Faria no mercado avícola ocorreu em 2007, quando surgiu um projeto para fornecimento de ovos férteis à Perdigão. Naquele momento, a companhia procurava um fornecedor terceirizado em Nova Mutum, no Mato Grosso, e o empresário decidiu construir uma granja de matrizes. Em meio ao receio provocado pela gripe aviária, ele afirma que não conseguiu obter financiamento bancário e precisou usar suas economias, vender imóveis e hipotecar a própria casa para viabilizar o investimento.

Até aquele momento, sua principal fonte de renda vinha do ramo de lavanderias. A Lavebras havia sido fundada por Faria em 1997. O empresário administrava uma pequena fabricante de uniformes industriais pertencente ao pai quando percebeu a possibilidade de transformar a simples comercialização de roupas profissionais em um serviço recorrente. A companhia passou a fornecer, recolher, higienizar e repor uniformes de clientes por meio de contratos de longo prazo.

A Lavebras acabou sendo vendida em 2017 em uma operação avaliada em € 340 milhões. Em maio daquele ano, a francesa Elis concluiu a compra da companhia por um valor que equivalia, na época, a aproximadamente R$ 1,3 bilhão. Naquele período, a estrutura societária da Lavebras também contava com a participação da família do empresário Edson Bueno, fundador da Amil.

A venda da companhia de lavanderias ajudou a definir a ambição internacional de Faria. Depois da transação, o empresário passou por um período sabático e estudou em Harvard. Em entrevista ao UOL em 2025, afirmou que o negócio havia lhe proporcionado segurança patrimonial, mas também deixado uma frustração: a empresa não conseguiu se internacionalizar. A partir daquele momento, a intenção de desenvolver um grupo global passou a orientar os passos seguintes.

Quando vendeu a Lavebras, Faria já estava havia cerca de dez anos no setor avícola. Após concluir a negociação, decidiu direcionar maior atenção à produção de ovos. Até então concentrada principalmente em ovos férteis, a Granja Faria passou a ampliar sua atuação no mercado de ovos comerciais e ganhou escala a partir de 2018. A experiência de não ter internacionalizado a empresa de lavanderias tornou-se uma referência para conduzir a expansão da nova operação.

A Granja Faria acabou se transformando em uma empresa de alcance nacional e também exportadora. Atualmente, possui 34 unidades produtivas, aproximadamente 2.700 funcionários e operações distribuídas por dez estados. Além de ovos comerciais e férteis, produz pintinhos e mantém exportações para 17 países. Segundo estimativa da Forbes, a companhia representa cerca de 10% do mercado brasileiro.

O processo de expansão permanece ativo dentro da Global Eggs. Em abril de 2026, o grupo anunciou a aquisição da Pearl Valley Farms, produtora norte-americana especializada em ovos especiais. O aporte realizado pela Warburg Pincus em março tem justamente entre seus objetivos acelerar a estratégia de crescimento internacional da companhia.

Negócios de Ricardo Faria além do setor de ovos

A Insolo representa o segundo grande eixo empresarial de Faria. O empresário adquiriu a produtora de grãos e fibras através da Terrus em uma transação de R$ 1,8 bilhão, anunciada em 2021 e finalizada no ano seguinte. A operação possui aproximadamente 275 mil hectares e ocupa a quinta posição entre as maiores produtoras de grãos do Brasil em área plantada.

Os negócios em fertilizantes e investimentos completam o portfólio do empresário. A Fertifar atua diretamente no mercado de fertilizantes, enquanto a RCF Capital concentra os investimentos realizados por Faria. O modelo da Fertifar inclui a utilização dos resíduos produzidos pelas granjas na fabricação de fertilizantes organominerais e procura aproveitar a escala agrícola do grupo para diminuir custos e elevar a produtividade.

Controvérsias e conflitos envolvendo o empresário

Uma declaração de Faria a respeito do Bolsa Família provocou uma controvérsia envolvendo o uso de linhas de crédito público por empresas ligadas ao empresário. Em junho de 2025, ao comentar as dificuldades encontradas para contratar trabalhadores, ele declarou: “As pessoas estão viciadas no Bolsa Família.”

A afirmação gerou críticas. Alguns dias depois, o Metrópoles identificou ao menos 71 operações de financiamento relacionadas ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), realizadas entre 2007 e 2024 e vinculadas à Granja Faria, à Lavebras e à Terrus. Os contratos totalizavam R$ 132 milhões em valores atualizados e correspondiam, em sua maioria, a linhas Finame utilizadas na aquisição de máquinas e equipamentos.

O grupo declarou que a participação do BNDES no financiamento de sua expansão foi marginal. Conforme a empresa, todos os empréstimos foram quitados, os recursos provenientes do banco público representaram menos de 1% do capital empregado e a maior parte do financiamento teve origem em bancos e investidores privados. A utilização dessas linhas de crédito, isoladamente, não representa qualquer irregularidade. A controvérsia ocorreu principalmente pelo contraste entre a crítica feita a um programa social e o uso de mecanismos públicos voltados ao financiamento empresarial.

O arrendamento de uma área da Fazenda Esmeralda também colocou a Insolo no centro de uma disputa fundiária no Piauí. Em fevereiro de 2026, a Repórter Brasil informou que a Terrus, razão social da Insolo, mantém o arrendamento de 585 hectares pertencentes à Damha Agronegócios. Documentos da Funai, do Ministério Público Federal e da Defensoria Pública obtidos pela reportagem indicam a existência de sobreposição entre a área da fazenda e territórios reivindicados por comunidades Akroá Gamella. Moradores acusam a Damha de invasão, destruição de casas, contaminação de fontes de água e ameaças.

Tanto a Damha quanto a Insolo negaram irregularidades nas áreas pelas quais são responsáveis. A Damha declarou possuir títulos considerados válidos, negou episódios de violência e afirmou que as acusações seguem em discussão nas esferas administrativa e judicial, sem decisão definitiva que invalide sua posse ou propriedade. A Insolo confirmou o arrendamento, mas declarou que as áreas efetivamente utilizadas para plantio não se sobrepõem às comunidades e afirmou nunca ter presenciado conflitos no trecho sob sua gestão. A empresa acrescentou que não realiza investigação completa sobre a origem dominial em contratos de arrendamento.

Outra controvérsia está relacionada ao cultivo em uma área parcialmente sobreposta a um embargo ambiental. Em fevereiro, uma análise da AidEnvironment divulgada pela Repórter Brasil apontou atividade agrícola dentro de um polígono que aparecia no portal ambiental do Piauí como embargado desde 2023 por supressão de vegetação realizada sem autorização. A área está localizada na Fazenda Serra do Ovo, onde a Insolo opera desde julho de 2025 por meio de um contrato de parceria rural.

A Insolo informou que não tinha conhecimento do embargo e declarou que o cadastro relacionado à sanção havia sido cancelado. Embora tenha reconhecido a sobreposição parcial, a empresa disse não saber da restrição quando assumiu a operação. Também afirmou que o embargo estava associado ao cadastro de uma pessoa que não fazia parte do contrato, que esse CAR foi cancelado administrativamente e que as informações disponíveis no portal estadual estavam desatualizadas. De acordo com a Insolo, o imóvel explorado pela empresa possui CAR ativo e licença ambiental válida. A divergência permanecia sem solução quando a reportagem foi publicada.

A aquisição de um tríplex relacionado ao patrimônio de Daniel Vorcaro também levou o nome de Ricardo Faria ao noticiário envolvendo o Banco Master. Em fevereiro de 2026, o UOL revelou que uma offshore ligada ao empresário adquiriu por R$ 50 milhões um imóvel de 914 m² localizado no Edifício Páteo Leopoldo, no Itaim Bibi, em São Paulo. A compra ocorreu em outubro de 2025, cerca de um mês antes da liquidação do banco. O tríplex pertencia à Super Empreendimentos, companhia ligada à administração de bens do então controlador da instituição financeira.

A negociação foi realizada através de veículos empresariais, mas não resultou em qualquer acusação formal contra Faria. A operação envolveu a Golden Castle Real Estate, registrada em Delaware, e a brasileira SF 1030X Participações. Até o momento referido no texto, não havia evidência pública de participação do empresário nas irregularidades investigadas relacionadas ao Banco Master. O grupo não comentou a aquisição. Uma representante do veículo brasileiro declarou que o imóvel foi apresentado por uma corretora, que as certidões necessárias foram verificadas e que nenhuma irregularidade foi encontrada; entretanto, ela não informou qual foi a origem dos recursos usados na transação.

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