Ela é a minha companheira. Ele é meu companheiro

O que significa dizer que alguém é o seu companheiro? Fico a pensar a respeito disso. Num primeiro olhar, eu tenho vontade de me levantar e aplaudir.

Sempre pensei em relações em que o outro seja o nosso companheiro. A outra metade da moedinha numero 1 do Tio Patinhas. Aquela companhia em que se estabelece uma parceria. Onde projetos pessoais podem ser discutidos e recebem os ajustes ou o apoio necessário para saírem do papel.

Aquela parceria onde o nosso companheiro não disputa com a gente a luz do sol. Mas nos anima e nos dá o suporte necessário. É como aquela ilustração comum nos filmes, onde os personagens dão-se as mãos, a câmera sobe deles até enquadrar o horizonte, naquele vôo que supomos que dali em diante tudo vai dar mais do que certo.

Enche-me de orgulho ver que podemos ter no outro essa reciprocidade. Ter uma companhia em tempos onde estamos a cada dia mais solitários.

Esse é o meu parceiro. Essa é a minha parceira. Ao dormir, ao acordar, nos finais de semana, nas noites todas ou em algumas. Na vida.

Entretanto, fico a pensar porque apresentamos as nossas relações como o meu companheiro ou companheira ou ainda como a minha parceira ou o meu parceiro. O que pode significar isso olhando por outro ângulo? Eu preciso trazer essa discussão, não para estragar as coisas, mas porque crescemos com as dúvidas e os questionamentos que surgem.

Será que deixamos de apresentar o outro como namorada ou namorado por outro motivo? Será que temos problemas com essa palavra ou será que a achamos retrógrada? Antiga e ultrapassada? Ou será que vivemos tempos tão liquidos, dizer que o outro é o nosso parceiro pode ser uma forma de relativizar a sua permanência ao nosso lado porque a relação de compromisso, como se traz enraizado ainda em nossas relações, é diferente e esta onde o outro é o nosso parceiro exige um conjunto menor de reponsabilidades?

Será que os nossos afetos pelo outro sentem um peso menor de compromisso perante os outros se eu o assumo como parceiro e não como namorado?

Podemos ter mais de um namorado? Não. Podemos ter mais de um parceiro? Será que ao dizer parceiro posso supor que hoje é o meu parceiro e que amanhã ou depois ele pode não ser mais, com uma liberdade e libertação maior do que se fosse meu namorado? Dói menos terminar com o namorado ou namorada do que dizer ao parceiro ou parceira que não vamos mais nos ver?

Será que estou apenas fazendo uma grande confusão por se tratar de novos termos para significar o mesmo tipo de relação? É apenas uma nova forma de dar nomes às relações?

Não.  De fato, é uma nova forma de se relacionar. O que ainda não está claro, e não é só pra mim, são as características, as nuances dessas novas relações. E o mais importante de tudo, se isso é o melhor.

Antes de mais nada, convido que a gente observe quem está ao nosso lado. Não importa o nome que damos para a relação que temos com essa pessoa.

Vamos por na mesa o que temos. Penso que isso é um ponto importante. Há afeto verdadeiro? Eu me preocupo com o outro? Há cumplicidade? Respeito? Temos aquela vontade de estar junto nas horas boas e nas horas difícieis? Sinto-me apoiada e apoio o outro? Dou espaço para que ele seja e viva como quiser e isso não me machuca? Eu tenho ao lado dele o mesmo espaço e o mesmo apoio para ser o que quiser e isso não o machuca? Compartilho a minha vida e as minhas outras relações com ele e tenho uma espécie de satisfação de dizer isso aos meus amigos todos e já passei ao nível de pensar a minha vida daqui para frente ao seu lado e, de alguma forma, temos ideia sobre o que ele pensa sobre todas essas coisas?

Feito isso, de certa maneira, já não vai importar tanto se é meu parceiro, meu companheiro ou meu namorado.

O que vale é saber a intenção e o significado do que está por trás do que nos leva a dizer que é o meu companheiro ou o meu parceiro ou o meu namorado. Não podemos ter medo de usar esta ou aquela palavra. Não podemos resumir nossas relações em uma palavra. Contudo, não podemos jogar palavras ao vento.

Tudo o que dissermos precisa ter por trás uma reflexão que nos leve a dizer o que realmente sentimos. Acima de tudo, sermos sinceros com a gente mesmo e com o outro.

Não alimentar expectativas se não as temos e não deixar o outro ir porque não fomos audaciosos o suficiente para assumirmos os nossos sentimentos de maneira integral e clara.


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