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Ela me educou para ser inteira, ainda que aos pedaços.

Sendo inteira…

Hoje eu me senti claramente dividida em duas metades. Metade pelo que já fui e metade pelo que sou agora. Senti-me metade filha, metade mãe.



Estranhamente, eu  me senti inteira na metade filha. Não sou mais filha de alguém. Sou órfã adulta, metade lembrança, metade saudade. Não tenho um  futuro a construir nas relações familiares filiais. Tenho apenas referências, boas ou más, mas a fase filha virou história.

Minha outra metade é mãe. Nesta estou inteira também e espero que meus filhos fiquem órfãos de mim em um tempo muito distante de hoje e, certamente, que eu jamais fique órfã deles.

Senti-me metade porque, por mais que acreditasse conhecer o passado da minha mãe, suas angústias e alegrias, textos e poesia, entendi que nada sei. Descobri que há muito para descortinar, que percebo que não terei o tempo e força necessários para tanto.

Hoje eu me senti metade cópia, metade original. Uma cópia inteira que o espelho revela todos os dias, quer eu queira, quer não, nas feições e no físico. E uma imagem inteira, pois completamente diferente quando analisado em gênio e personalidade.


Hoje eu  senti metade amiga, metade companhia. Senti-me metade filha, metade impostora. A filha muitas vezes amiga, com tantas afinidades e assuntos para conversar; outras tantas, apenas companhia, como se comigo fosse calmo esperar o dia a passar.

A metade filha foi intensa. Intensa em desfazer a imagem perfeição com que ela me descrevia para os demais. Intensa em tentar ser a perfeição.

A metade impostora me veio como se, no momento desta descoberta, eu intuísse que não fui digna de uma confiança, que sei, não nos faltou.  Ao contrário, confiança sempre foi um valor ímpar em nossa educação e de um modo inigualável, sempre tivemos uns nos outros. E, só de pensar numa situação assim, já seria um ato de extrema traição.


Ela me educou para ser inteira, ainda que aos pedaços. Inteira ainda que as metades se contradigam. Inteira por mais que eu me  dividida em vários papéis – mãe, irmã, esposa, divorciada, viúva, profissional ou aposentada, não importa.

Ela desejava e exigia de mim que eu fosse independente, incomum e única e que, principalmente, reconhecesse em mim  a unidade ser-luz-espírito, para um dia, ainda que me sentindo em frangalhos, eu esteja certa que permanecerei sempre inteira.

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Direitos autorais da imagem de capa: stockbroker / 123RF Imagens

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