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Ela nunca soube desatar nós

ela nunca soube desatar

No bar, uma seleção de músicas (que parecia ter sido) feita exatamente praquele momento. Ela disfarça, mas tenho certeza que tava com olhos marejados e coração palpitante, esperando a tua chegada. Teve tempo de reparar no sorriso que o garçom trazia no canto esquerdo da boca. Na cabeça dela era deboche, mas o cara só tinha recebido uma proposta melhor de emprego mesmo.



Ela também reparou naquele casal que entrou de mãos dadas, sem trocar nenhuma palavra. Eles entraram e sentaram-se à mesa que ficava perto do banheiro, debaixo daqueles porta-retratos que tinham fotos que vocês, juntos, nunca conseguiram descobrir de quem se tratava. Eles mal trocavam uma palavra com o outro e quando balbuciavam alguma coisa, parecia mais uma espécie de agressão. Você não sabe, mas outro dia ali, sozinha, te esperando, porque sempre esperava, ela perguntou ao dono do bar quem eram aquelas pessoas, ele sorriu e respondeu que eram ‘amores de vida, amores antigos’. Lembrou-se de você… que não apareceu.

Quando tirou os olhos do casal e olhou pra bebida, lembrou-se do motivo que a levara até ali. Foi por você, moço. Nos pensamentos dela, ela estava ali por você e não pra você. Lembrou-se de todas as vezes que pra você ela se despia das roupas, das máscaras de pepino, das coisas que ela dizia pra se defender. E ela remoía todas as vezes que se entregou por inteiro e você sempre sendo metade. Ela não conseguia lembrar o motivo que a levara a fazer isso, mas ela tava ali dessa vez, jurava, pra te dizer que nunca foi bem assim que ela te quis.

Moço, ela queria que você reparasse que ela precisava de romance, mesmo sabendo que você preferia uma espécie de suspense que não sustentava o drama dela. Ela queria que você entendesse que também precisava de algum tipo de retorno, um efeito-bumerangue pra ver se você voltava. Sabia que você não precisava de nada mais que isso, mas no fundo, ela esperava que você também sentisse essa necessidade. Sabia que contava com você pra tudo que precisasse. Sentia em você uma espécie de certeza, mesmo que fosse mentira.


Uma vez, alguém disse que, pra que pudesse ter laços bonitos na vida, ela precisava desfazer os nós. E foi nesse instante, moço, que entendeu que você era um nó. Apesar de não se verem com tanta frequência e nem conseguirem rotular a espécie de relacionamento que vocês levavam, ela precisava se desfazer disso pra se sentir livre. Ela estava ali pra isso, pra te desfazer de vez.

E em meio ao carretel de emoções, ela sentiu alguém tocar-lhe as costas. Olhou pra trás, já sem esperanças de que você viesse. Se deparou com o sorriso amado e viu teus olhos molhados de chuva. Você sentou na cadeira ao lado, repousou os pés na cadeira dela, inclinando-se ao seu encontro. Ela sutilmente abaixou a cabeça com um sorriso no canto da boca e você a beijou a testa. Conversaram por horas, riram, fizeram um mundo de dois e transformaram o tempo.

Ela acabou não conseguindo te dizer, mas pra ela, você e tudo aquilo que vocês cultivavam era infinitamente maior do que aquele casal sentado próximo ao banheiro teriam a vida inteira, do que aqueles amores de vida, do que os amores antigos.

Ela não entendia tua confusão, mas se entendia. Se fazia de racional pra explicar a si mesma que precisava dos teus olhos apertados e da tua forma de nunca voltar claramente. Foi na hora em que você levantou pra ir ao banheiro que ela riu baixinho e  agradeceu a si mesma por ser tão ruim assim em desfazer certos nós.


 

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Escrito por Clarice Albuquerque – Via Entre Todas as Coisas


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