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ELA TEM ALGUÉM

É, ela posta foto nas redes com o amor da vida dela (pode ser temporário, pode ser eterno, a gente nunca sabe, só sabe o que vê naquela tela). Ela nem é tão bonita, o nariz tem um lado mais torto do que o outro, o cabelo é progressiva, mas quem se importa? Parece que o moço que tira fotos dela, sem ela perceber e posta fazendo declarações parece não ligar se o cabelo dela é liso ou enrolado, ele a olha com clareza, naturalidade. É o que parece, é a impressão que dá.


Eles moram juntos, reformaram a casa a pouco, compraram móveis e se inspiraram no painel home <3 do Pinterest. Tudo é milimetricamente calculado, a planta, a TV, o quadro, até a caminha do cachorro.

Ele escreve para ela, ela escreve dele, ele retrata ela, ela filma ele. Eles vão a shows juntos, restaurantes, de vez em quando se jogam em alguma boate, se divertem, ela toma seu drink e ele o dele, ele sai, ela recebe uma cantada de um qualquer, ela delicadamente diz que é “casada” e que não se interessa por qualquer outra pessoa. Ele viu, deu risada, manteve-se concentrado na busca de mais uma bebida, ele volta, ela conta o que o cara disse, eles riem, se beijam, e nada acontece. Eles dançam na pista, até quase o Sol nascer, voltam para casa, se amam. Café na cama, risos matinais lembrando do miniporre da noite anterior, saudável. Ela ganha mais que ele, ele se diverte com isso, a acha especial, criativa e inovadora.Ele luta pelos seus ideais, gosta da sua guitarra, ela adora seus deslizes nas cordas, dá suas dormidas no fim de tarde, mas ele cozinha pra ela, é leve, sutil. Como o amor deve ser.

Leve, livre, delicado na essência. A briga pode acontecer, a conta de luz pode ser esquecida de ser paga, a toalha molhada pode ficar em cima da cama, a meia no canto da sala, o copo de água na beira do sofá, a louça esquecida de lavar, os percalços do dia a dia sempre vão acontecer, humanos na divisão de sua individualidade. Não tem como não ter problemas diários. Não tem como se entenderem por completo. Existem duas vidas, duas criações, duas famílias diferentes, duas almas, dois corpos, duas naturezas, e uma só vontade, a de ficarem juntos.


É nessa vontade que os relacionamentos devem se apegar, é na admiração pelo outro, pelo cheiro, pela pele, pelo sorriso do outro. É saber entender o tempo do outro. É aceitar o individualismo como não egoísmo, é aceitar que a pessoa tem seu amor-próprio e é por causa dele que ela pode te amar na leveza, é por causa dele que a outra pessoa pode dar o seu melhor para você, é por causa dele que ela consegue te ter como amigo e não numa competição de forças. Amar a si antes do outro o torna seguro de suas vontades e te deixa mais confiante em poder ter alguém, alguém que te aceite como você é, no seu timbre de voz, na sua felicidade matinal ou no seu mau humor, na sua TPM, na sua crise de choro, nas suas reclamações diárias, ou no seu processo randômico de fala eterna enquanto está bêbada, é, seria assim, simples se todos conseguissem pensar dessa maneira, se todos estivessem dispostos a se doarem, sem a máscara da dureza e a rigidez da posse.

 

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Escrito por Ana Albanez – Via CATWALK





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