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Em busca da mudança…

Ouvi, dentro de um ônibus, duas garotas reclamarem dos seus empregos. Diziam que trabalhavam demais, que eram mal pagas e estavam mortas de cansaço.

Uma delas falou que tudo iria mudar, pois ela prestaria um concurso público. Como se o concurso fosse o único jeito de mudar sua vida! E são várias as pessoas que pensam assim. Todos querem o emprego dos sonhos, onde se trabalha pouco e ganha muito. Os “concurseiros” ficam atentos a todos os concursos lançados, que são vários; principalmente, próximo às eleições, quando são abertas várias vagas.



Na mídia, as propagandas destacam o salário pago ao futuro servidor público; nos cursinhos preparatórios, salas lotadas; todos em busca do mesmo objetivo, trabalhar pouco e ganhar muito, e, em busca disso, estudam e estudam, não têm dia e nem horário, os concursos são muito concorridos e todos querem ter um trabalho melhor.

Finalmente, o grande dia chegou: é Domingo, 7:00 hs da manhã e, em frente à instituição onde será aplicada a prova.

Um mar quieto e calmo de gente, rostos apreensivos, sérios, concentrados. O tempo passa e mais pessoas vão se amontoando em frente ao portão que continua trancado, mesmo após várias reclamações; alguns aproveitam o atraso para dar a última estudada na apostila, outros não param de reclamar, enquanto muitos só sussurram, e no meio daquele mar, uma mulher vai gritando: “Olha a caneta preta! Olha a caneta preta!”.

Os portões se abrem, e o mar avança portões adentro, sem fila alguma. Todos vão na mesma direção, e em poucos minutos estão todos, lá dentro nos corredores. O barulho que antes não era muito agora atordoa, sobem escadas, descem escadas, empurram a procurar salas.


Em meio à confusão, um funcionário da organização da prova tenta responder a todos, mas parece estar se afogando no mar que agora está turbulento. Depois de tanto alvoroço, todos nas salas à espera da prova, e mais uma vez a demora, enquanto a prova não chega os concurseiros esquecem que todos ali são concorrentes e aliviam a tensão conversando e fazendo piadinhas sobre a prova, até serem interrompidos pelo arranhar de garganta do fiscal.

Em suas mãos dois envelopes lacrados, dentro os passaportes, que, se preenchidos corretamente, darão o direito de ter o emprego dos sonhos.

O silêncio é absoluto, quebrado, às vezes, por uma tosse, um estalar de língua, um espirro ou um sussurro. Após duas horas de prova começa a movimentação, cadeiras sendo arrastadas e, aos poucos, a sala vai ficando vazia. Nos corredores não há mais aquela correria, ninguém tem pressa, passos lentos e silêncio, os rostos não são mais apreensivos e nem tensos, todos caminham quase em fila rumo ao portão, que nem precisa ser todo aberto. Os concurseiros saem com a expressão de quem cumpriu um dever e não um direito de tentar mudar seu futuro. Resta-lhes voltar pra casa e esperar, mas não no sentido de sentar e cruzar os braços.

Amanhã é segunda-feira e tem cursinho, oficina de português, plantão de matemática, tira dúvidas e uma apostila inteira para estudar, afinal domingo que vem, tem mais uma prova.

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Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: halfpoint / 123RF Imagens

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