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Em um mundo de tantas opiniões não solicitadas, às vezes, tudo o que precisamos é ser ouvidos, sem críticas e julgamentos

Se quer ser, deixe que o outro seja também. Num mundo de tantas cobranças e de tantas opiniões não solicitadas, às vezes tudo o que a gente precisa é ser ouvido, sem críticas e sem julgamentos. “Só me escuta, pode ser?”


Acho que uma das maiores descobertas que a gente faz na vida tem a ver com a gente mesmo: quem realmente somos e, sobretudo, o que podemos fazer a partir desse ser.

Há tempos percebo o quanto a espera por uma versão idealizada, romantizada, perfeita e inalcançável de nós mesmos nos leva a simplesmente deixar de viver. Em nome de tantas “melhores versões” e de tantos discursos pautados no “tenha uma vida extraordinária” e “quando isso acontecer, aí sim…”, vamos compartimentando nossas experiências, entre o que se encaixa no ideal de sucesso e felicidade do senso comum – e que tem que ser mostrado – e o que simplesmente nos coloca na posição de meros mortais, cheios de falhas, fracassos, defeitos e imperfeições – e que, portanto, não merece ser celebrado.

É como se, de repente, nessa cultura do extraordinário, viver uma vida comum e ter dias não tão bons assim (alguns muito ruins mesmo) fosse um pecado mortal. A gente não pode mais reclamar, para não ser o ingrato; nem discordar de nada, para não ser o chato. Se o cansaço bate à porta, e a gente ensaia fazer uma pausa para atender, tem sempre alguém para lhe sorrir um sorriso torto e para reverberar os discursos que exaltam a importância da produtividade, do mindset, do time is money e por aí vai.


E se a gente já estava se sentindo culpado por querer descansar, a culpa aumenta, o peso pesa e o workaholic que habita em nós logo grita: o mundo é dos fortes!

Ok. Se você não se levantar – do chão, da cama, do sofá, do fundo do poço – e fizer o que precisa ser feito para transformar a sua realidade, ninguém fará isso por você.

Só que você é humano. Você não é uma máquina. E essa coisa maluca chamada vida tem muito mais a ver com a jornada do que com o ponto de chegada em si. Errar faz parte. Falhar faz parte. Não estar feliz e satisfeito o tempo todo faz parte. Ficar cansado faz parte também.


Pode ser que você esteja em um dia ruim e simplesmente não esteja a fim de dar bom dia ao sol e distribuir sorrisos e abraços por aí. E está tudo bem. Talvez você esteja na fase de se recolher um pouco mais, de se calar um pouco mais, de se conhecer um pouco mais. E está tudo bem também.

Num mundo de tantas cobranças e de tantas opiniões não solicitadas, às vezes tudo o que a gente precisa é de ser ouvido, sem críticas e sem julgamentos. “Só me escuta, pode ser?”

Mas, então, as escutas, ao invés de acolherem, condenam. Os olhares, ao invés de nos abraçarem empaticamente, desviam-se da gente. Ninguém quer ouvir. Ninguém quer olhar enxergando.

E é aí que a gente para de falar da nossa verdade só para ser aceito, amado, respeitado, ouvido e acolhido pelas verdades dos outros.

Vulnerabilizar-se virou sinal de fraqueza, quando, na verdade, o que mais nos conecta com as outras pessoas é o que nós temos de mais vulnerável.

Em linhas gerais, não somos deixados nem deixamos ser. E é aí que está o x da questão: como posso exigir do outro aquilo que eu mesmo ainda não tenho condições de dar?

Talvez seja hora de nos olharmos no espelho (o interior, principalmente) e nos sentirmos orgulhosos daquilo que vemos. Das marcas. Das cicatrizes. Das falhas. De tudo.

Principalmente, talvez seja hora de pararmos de ressaltar os defeitos dos outros, como se nós mesmos não os tivéssemos, como se fôssemos perfeitos. Porque não somos.

Eu não sou perfeita. Você não é perfeito. E tá tudo bem.


Direitos autorais da imagem de capa: Daniel Schaffer/Unsplash.





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