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Embaraço do tempo

embaraço do tempo

Seria apenas mais uma segunda-feira, com sua típica rotina de pessoas estressadas e reclamando pelo fim de semana que se esvaiu entre os dedos, aquelas tradicionais lamúrias de quem vive à espera do amanhã, do fim de semana, das férias, da aposentadoria até se dar conta de que o tempo cruelmente passou e arrastou seus sonhos como uma avalanche impiedosa. Ao observar esse vai e vem incansável de pessoas insatisfeitas com o mundo, reparei em um senhor com o olhar de superioridade, respeitado pela hierarquia, suportado pelo poder que lhe foi concedido. Carreira consolidada, anos de trabalho duro para enfim ser reconhecido pela sua alta competência profissional. Adepto a metodologia de obter respeito através do medo imposto nas pessoas, esse senhor levou-me a refletir a respeito do que realmente importa e tem relevância nessa breve passagem que é a vida.



Há aproximadamente quatro meses também enfrentei uma avalanche impiedosa, que levou o que era até então, meu maior sonho: a tão almejada carreira consolidada em uma grande empresa. Construí toda minha vida em torno desse sonho: ganhei minha independência financeira, a possibilidade de alugar meu “canto”, como sempre fora sonhado: pequeno, aconchegante e no centro da movimentada cidade, provisório, pois logo teria meu próprio imóvel, acompanhado do meu carro, que aumentaria ainda mais minha independência, cirurgias plásticas e tratamentos estéticos, cartões de crédito com limites consideráveis, roupas elegantes, bons salões de beleza e restaurantes. Finalmente eu era “alguém” para a sociedade, já havia conquistado meu passaporte para entrar para o seleto grupo de pessoas conhecidas e promissoras. Em pouco tempo consegui me destacar em várias atividades que exerci, e o reconhecimento veio a jato: em menos de três anos já havia conquistado um cargo de chefia. Lembro das inúmeras conversas que eu tinha com minha mãe e meus avós, sempre frisando a alegria e gratidão que sentia por estar vivendo o então rotulado como “melhor momento da minha história”. As outras áreas iam de mal a pior: relacionamentos falidos, choros incontroláveis nas madrugadas, solidão, sensação de estar incompleta, insatisfação com minha imagem, feridas sangrando e fantasmas me assombrando. Para tudo eu encontrava uma solução paliativa: compras, festas, comida e a falsa sensação de que aquilo tudo iria passar, afinal de contas, eu era alguém notável.

As cobranças para atingir metas aumentavam em paralelo com as responsabilidades. Tudo era superável. Trabalho acima de tudo!  Me afastei de minha família, amigos antigos, de minhas crenças, raízes e personalidade, era uma nova versão, uma repaginação de meu eu. Tudo pelo trabalho, era minha nova identidade, nada mais importava. Fiz do trabalho minha fortaleza, era minha segurança, algo em minha vida estava dando certo. Finalmente!  O resultado disso tudo você já deve imaginar, caro leitor. Uma avalanche, sequer imaginada, levou tudo no final da tarde de uma quinta-feira, na sexta-feira estava eu, dopada de tranquilizantes, tentando acordar do pesadelo, juntando os destroços em meio a lama, buscando meus pedaços espalhados como cacos de cristal. Nada fazia sentido, eu buscava respostas que não vinham. Como pode acontecer? Eu sempre fui brilhante! Atingi todas as metas! Como pode do dia pra noite meu sonho ser destruído dessa forma? Eu dei meu sangue! O que está acontecendo? Como falar para meu pai? Como vai ser daqui pra frente? Me vi em meio a uma tempestade, já que o trabalho era tudo pra mim, então não possuía mais nada.

Exatamente nesse instante que o senhor citado no início do texto passa a entrar em minha história, você já vai entender…. Meu mundo havia desabado em um segundo, foi muito rápido, um choque, um sopro e a vida mostrou-me tudo o que havia desaprendido, tirou-me o chão para que eu fosse obrigada a aprender voar. Não restou nada além da solidariedade de alguns familiares e amigos, o teto de meus avós, o ombro de minha mãe para chorar e um eu, desfigurado, sem rumo e imerso na pior das depressões de minha história. Tudo destruído e eu não sabia nem por onde começar a reconstrução. Em meio a uma imensidão de lágrimas, lamúrias e revoltas, entendi finalmente o significado da palavra resiliência. É bem mais que ser forte, é extrair a última gota de vida para prosseguir e se adaptar ao novo, ao desconhecido.


Hoje, após quatro meses da tempestade que tornou-se um divisor de águas em minha biografia, percebo no que eu estava me tornando, uma cópia fiel do senhor que descrevi no início de nossa conversa: bem sucedido profissionalmente, mas uma das pessoas mais pobres de espírito que já conheci. Vi que um bom salário ou uma posição social não preencheram o vazio que eu já trazia da infância, não me fez mais segura, não estancou o sangue jorrando das feridas abertas. As comidas caras não saciaram a fome de carinho e aceitação, o guarda roupa saturado de roupas novas, não me tornaram no que sempre sonhei em ser. Os sapatos de grifre não levaram meus pés aonde eu deveria ter pisado: nos terrenos inexplorados de minha vida. Pensei que ser bem sucedida como meu pai, já era o bastante para ser feliz e completa. Enquanto o sangue jorrava e meu corpo emitia sinais de alerta, eu mascarava os sintomas com a falsa afirmação de que meu trabalho era minha vida.

Tive que renascer das cinzas, procurar saber quem sou eu, quais são meus verdadeiros sonhos, onde quero chegar, onde Deus quer me levar. O que então realmente importa? É claro que gostaria de ter minha rotina de volta, dessa vez com uma visão mais madura e refinada do que é então essa vida.  Mas nosso existir ainda não possui um controle remoto para voltar no tempo, nem a tecla DELETE para apagar nossos erros, não tem como voltar ou avançar. O que possuímos é o hoje. Amanhã sempre será um grande mistério, uma avalanche pode surgir do nada, uma tempestade do além pode levar suas certezas… Como levou as minhas… Mas os mesmos ventos que levaram minha então “segura casa”, me trouxeram um grande aprendizado: Nada é certo nessa vida, tudo passa… Os momentos, as alegrias, as tristezas, as pessoas, tudo é breve… Tão breve que quando resolvemos despertar de nossas ilusões seremos mais uma cópia frustrada de um senhor rico, porém evitado por todos, sábio, mas que seus ensinamentos a ninguém interessam, importante na sociedade, mas um desconhecido para sua própria família. Quando é citado, sempre seu nome é vinculado a atitudes negativas. Jamais é lembrado por algo de bom que realizou na vida de alguém, apenas pelas riquezas que acumulou e os corações que feriu.

O tempo é embaraçoso mesmo…. Somos almas em constante evolução, e nosso destino é sempre o aprendizado, como diz o velho ditado, aprenda por amor, caso contrário a dor te ensinará.


É por isso que você precisa massagear seus pés todas as noites antes de dormir

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