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Encontros acontecem a toda hora. Conexão é algo raro!

Conexão ou projeção amorosa? O que define um relacionamento real?



De repente, dentre tantas pessoas no mundo, você encontra aquela que o faz sorrir, não importa o quão idiota a conversa seja. Como explicar aquela sensação de intensidade ao nos depararmos com alguém especial? Encontros acontecem a toda hora; conexão é algo raro.

Por vezes, ao sentirmos atração física por alguém, pensamos ter encontrado a pessoa “ideal”. Mas é só uma impressão. As conexões mais profundas não se estabelecem nem sempre no instante, mas na atração mental que nos faz fugir do raso e mergulhar no lago profundo, que vai além da representatividade física.

Quando achamos alguém que nos atraia mentalmente, experimentamos a conexão de alma. Daí, passamos a interceptar e traduzir toda a aura de mistério que envolve o outro, pois estamos absortos em sua essência. É como se passássemos a “ler” a mente da pessoa, ainda que esteja a léguas de distância. Pode ser num tom de voz, num comentário, numa música, numa escrita, num breve cruzar de olhos, na forma como se senta.


Não é surpresa, em casos de relacionamentos longos e duradouros, acontecer o seguinte fato: duas pessoas, ambas de lados opostos, numa festa, num ambiente com música, muita gente conversando, de repente cruzarem os olhares e ficarem se encarando ao experimentar, simultaneamente, a sensação de que o tempo parou no instante em que suas essências se encontraram.

Existe sim paixão à primeira vista, mas amor leva tempo, exige amadurecimento espiritual.

É aí que podemos ser traídos por nossa mente. Vivemos uma era em que o imediatismo ultrapassa todos os passos dos relacionamentos. A era digital, com seus diversos programas de encontros, certamente facilita a aproximação e promove encontros bem-sucedidos, e isso é um fato. A web minimiza distâncias à velocidade da luz. Como é gostoso matar a saudade de um rosto querido, não é mesmo? E saciar a nossa curiosidade, exercer o voyerismo tão comum a todos nós, ao stalkear um perfil de alguém em quem estamos interessados, até mesmo para saber detalhes pessoais sobre estilo de vida e forma de pensar do outro? Até para sabermos se temos pontos em comum para o tal match perfeito. Sem sombra de dúvida, adianta muito.

Mas do que muita gente se esquece é que o “web mundo” é uma vitrine onde expomos apenas o que temos de mais atrativo, usando estratégias de marketing pessoal para tornar a sua vida mais interessante aos olhos do outro.


Num mundo cada vez mais competitivo, com pessoas atraentes, bem-sucedidas, etc., a competitividade é de fato bastante acirrada. Então, como dizemos se algo nos é agradável aos olhos? Através dos likes. Na nossa percepção, quem dá um like é porque gostou do que viu, certo? Foi nos stories, curtiu uma publicação, uma foto, enfim, e logo, pensamos: huuumm…, tá me querendo.

Será mesmo? Às vezes, é por educação. Mas também pode ser que não. Como saber?

Quando há conexão mental com o outro, temos uma sensação de bem-estar ao saber algo sobre a pessoa, ainda que, aos olhos de outra, pareça irrelevante. Começam a ocorrer sincronias. A pessoa e você podem postar coisas semelhantes num limite curto de tempo, por exemplo. Você pode estar pensando na pessoa e encontrá-la na rua, num horário que normalmente não a encontraria.

Se vocês forem pessoas que já tiveram algum tipo de contato pessoal mais íntimo e no momento não estejam mais tão próximas, é comum ler algo que a pessoa postou e imediatamente imaginar o que ela sentiu ao escrever aquilo. É como se você a visse no momento em que passou por experiência.

Quando você está numa conexão verdadeira com alguém, não encontra palavras para descrever a outros o que sente sobre essa pessoa, porque está além da sua concepção. Quando duas pessoas experimentam essa conexão, algo muda na vida de ambas. É como um novo sopro de vida. De repente, você se sente estagnado e depois, num passe de mágica, se torna uma nova versão de você mesmo, uma versão turbinada. Como se entrasse no Delorean DMC-12, do filme “De volta para o futuro”, e encontrasse o seu eu do passado e não se visse como você mesmo.

Há uma passagem do filme “Frances há” que diz:

“É isso que eu quero em um relacionamento, o que meio que explica porque estou solteira agora. É difícil de explicar. É uma coisa quando você tá com alguém e você ama a pessoa e vocês sabem disso. Vocês estão juntos, mas é uma festa, sabe? Os dois estão conversando com pessoas diferentes. Você tá lá sorrindo e olha para o outro lado da sala e vocês trocam olhares. Mas não porque são possessivos ou que seja algo sexual, mas apenas porque aquela é a pessoa da sua vida. E isso é engraçado e triste, mas só porque esta vida vai terminar. E é esse mundo secreto que existe bem ali em público, mas imperceptível, que ninguém vai ficar sabendo. É tipo como dizem, uma outra dimensão que existe ao nosso redor, mas não temos a habilidade de notar. Sabe? É isso. É isso que quero de um relacionamento. Ou da vida, eu acho. Amor. Parece que tô viajando, mas não tô…”

Essa citação da personagem exemplifica com maestria como é se sentir conectado a alguém. É algo que decreta algo como: não sei para onde os nossos caminhos irão nos levar nem quanto tempo demore, mas eu sei que é com você que eu vou ficar até o final dos meus dias.

Porém, nossa mente pode nos pregar peças, e se nós não tivermos o autoconhecimento necessário, andaremos perigosamente na linha da idealização.

A carência é nossa pior inimiga. Ela cria projeções sobre o outro que não correspondem à realidade. Mas, como saber se o outro corresponde às nossas expectativas?

Simples. Repare não no que é dito, mas no que é vivido. Parece clichê, mas é fato que atitudes falam mais do que palavras. Falam não, gritam! E ao megafone, mais ainda. Há coisas explicitamente claras que entregam todo o esquema por trás da aparência “receptiva” de alguém.

A pessoa diz que adora você, mas nunca tem tempo para vê-lo. Fala rapidamente com você e se despede dizendo que tem outra coisas para fazer, mas continua online. Demora dias para responder a uma mensagem, você sempre inicia as conversas, enfim… Uma gama de sinais que evidenciam nitidamente o perfil da pessoa.

Como entender que, nesse caso, não é recíproco? Embora você se sinta conectado a alguém, você se doa pelos dois, demanda grande parte de tempo a se dedicar ao outro. A exaustão mental confunde o seu estado emocional e então nasce a idealização como mecanismo de defesa psicológico, sublimação, que “liberta” o indivíduo de  uma angústia. Significa que uma coisa (pessoa, animal, objeto, convicção, atitude) adquire um valor na perfeição absoluta ou na desilusão total.

O termo foi nomeado pelo pai da psicanálise, Sigmund Freud, no seu artigo de 1914, intitulado “Narcisismo: uma introdução”, e diz respeito à ação de um indivíduo em engrandecer um objeto sem alteração da sua natureza. O autor defende também que “a identificação com objetos idealizados contribui para a formação e enriquecimento da pessoa a partir das instâncias ideais: ideal do ego e ego ideal. Está ligado ao nascimento e às primeiras relações, sendo utilizado ao longo da vida, modificando a energia que é mobilizada para o objeto.”

A idealização dos pais, por exemplo, também é um fator que influencia e intrinsecamente faz parte do desenvolvimento das instâncias ideias. Poderá ser um componente de saúde mental, e sem recurso à realidade, poderá ter um caráter patológico.

Ou seja, não é real! A pessoa que admiramos nos mostra uma parte dela que nos agrada, nossa carência afetiva guarda instantaneamente essa sensação de aconchego, e essa passa a ser o nosso “par ideal”. É aquele caso típico da pessoa que todos falam que não presta, que não lhe dá valor e lhe dá sinais claros de total desvalorização e desinteresse, e você romantiza suas ações justificando a falta de interesse do outro com “falta de tempo”.

Na conexão amorosa real, há troca, reciprocidade. Na idealização, há apenas você e você mesmo na estrada de tijolos amarelos que leva ao mágico mundo onde vive o Mágico de Oz. Mas é um mundo fictício. Tanto que o filme se utiliza da belíssima alegoria dos sapatinhos vermelhos de Dorothy na representatividade da volta ao lar. O conforto ao retorno da coragem de enfrentar a realidade, por mais dura que seja.

Se você vive um amor de contos de fadas, saiba que ele não existe. Bata os sapatinhos três vezes e volte ao racional, tome as rédeas da sua vida e crie sua realidade de forma saudável. Com a mente fortalecida e a esperança renovada, volte a si mesmo e repita: “Não há lugar como a nossa casa.” Ao mesmo tempo, o Universo estará dizendo: “Bem-vindo à compreensão do que é o amor verdadeiro.”

Finalizo com um poema da psicóloga e querida amiga Marta Mieko.

Real/Ideal

O ideal é perfeito; o real é o que é.

O ideal é certo; o real é uma surpresa.

O ideal é encantado; o real é um fato.

O ideal é um sonho; o real é concreto.

O ideal é controlado; o real acontece.

O ideal é criado; o real existe.

O ideal é ilusão; o real é verdade.

 

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