ColunistasReflexão

Enquanto não atravessarmos a dor da nossa própria solidão, continuaremos a buscar outras metades…

ENQUANTO NÃO ATRAVESSARMOS A DOR capa e dentro

Sempre gostei de momentos de solitude. Nunca tive problemas com o fato de viajar, ir ao cinema, ao parque ou tomar um delicioso café comigo mesmo. Estranho como as pessoas se espantam quando digo que vou “me levar passear”. A reação é geralmente esta: “Coitadinho, está sem companhia?” “Quer que eu vá contigo?” ou:  “Está deprimido?”



Costumo responder que não há problema algum comigo e explico que a solidão sim é algo doloroso, vazio e incompleto. Já a solitude é estar em paz e conectado consigo mesmo. São conceitos opostos.

Sinto pena daqueles que precisam de um relacionamento porque não conseguem se apoiar em si mesmos, são pessoas que usam outras pessoas como muletas. Mas isso é tema para outro artigo.

A nossa cultura não valoriza a solitude. Não somos estimulados a ficar sozinhos e olhar pra dentro, ao contrário, a sociedade sempre nos convida a olhar pra fora, como se a vida fosse uma eterna festa da qual temos que fazer parte, como diria Bauman, um sociólogo que eu adoro.


Óbvio que estar consigo mesmo é muitas vezes perturbador. Enfrentar os barulhos internos e os questionamentos que surgem quando resolvemos fazer uma viagem para dentro de nós pode não ser muito suave, mas é extremamente necessário, pois só assim podemos voltar ao palco social produzindo relacionamentos melhores (visto que estaremos mais livres e independentes). É fundamental sabermos quem somos para nos relacionarmos de maneira mais autêntica e verdadeira.

É importante não confundir a solitude com o isolamento total, afinal, é difícil imaginar uma vida sem pessoas ao nosso redor. Contudo, por que não ter momentos maravilhosos conosco? Somente quem pratica a solitude é capaz de ser independente, ainda que a independência dure uma tarde, um dia, uma viagem ou meia hora cantando no chuveiro.

Enfim: “enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes é necessário ser um”. Fernando Pessoa.


Metades… – quando inteiro busquei outro inteiro…

Artigo Anterior

Seja bem vindo 2017!

Próximo artigo

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.