publicidade

Envelhecer é um prêmio que cabe só para quem ousou viver demais

Crianças bem pequenas costumam sentir-se atraídas por pessoas idosas; parece haver uma conexão entre os extremos da vida. Curioso paradoxo: quando atingimos idades bem avançadas ficamos muito parecidos com a nossa primeira versão; voltamos a ser criaturas frágeis, inseguras; e, muitas vezes, voltamos a necessitar de tantos cuidados quanto necessitávamos quando éramos bebês.



Apesar de não nos darmos conta disso, assim que nascemos começamos a envelhecer. Isso nem chega a ser um fenômeno, faz parte do script de nossa rápida participação na história do planeta Terra. É assim com todo mundo: tanto faz a cor da sua pele; seu poder aquisitivo; sua capacidade intelectual; sua aparência… O tempo vai exercer seu poder sobre o seu corpo que é tão perecível e suscetível às intempéries da vida, quanto uma flor que brota maravilhosa numa explosão de vida, mas não escapa de ver suas pétalas murcharem e caírem. É a lei da vida!

Outra questão extremamente curiosa é o fato de sermos os filhotes mais dependentes entre as inúmeras espécies de seres vivos que vivem por aqui. Absolutamente indefesos, ficamos submetidos aos cuidados daqueles que se dispuseram a nos trazer ao mundo. Precisamos do outro para sermos alimentados, protegidos e limpos.

E, por mais que esse nosso planeta tenha evoluído e conquistado os mais sofisticados avanços tecnológicos, os bebês humanos apresentam um rudimentar sistema de comunicação. O choro é nossa única forma mais eficiente de mostrar aos adultos que estamos aborrecidos ou com fome; sentindo-nos solitários ou sujos; passando calor ou frio; padecendo de sede física ou afetiva. Somos extremamente incompreendidos por muito tempo, até que possamos nos expressar com clareza sobre o que queremos, pensamos e sentimos.

E, pensando bem, continuamos a padecer de “ruídos na comunicação” ao longo de toda nossa vida. Mesmo quando já somos capazes de juntar letras, palavras e ideias (das mais simples às mais complexas), o que expressamos pode ser interpretado de infinitas formas pelo outro. Nem sempre o que dizemos é exatamente o que o outro dá conta de entender. Mesmo assim, o fato de aprendermos a dominar o código de comunicação facilita um bocado a nossa vida, se comparado à aflitiva situação de um recém-nascido.


Além disso, não inventaram ainda método mais eficiente de aprendizagem do que a experiência. Uma coisa é você observar os avanços motores de uma criança desde que faz movimentos aleatórios de tronco, pescoço e membros, até que consegue rolar, arrastar-se, engatinhar, permanecer em pé sobre as inseguras perninhas e, finalmente arriscar-se nos primeiros passos. Outra coisa é passar por tudo isso. O que vemos “de fora” é uma ínfima parte do que essas aparentemente simples conquistas representam para um bebê humano. Todo esse processo requer um conjunto complexo de desenvolvimento motor, ósseo, muscular, intelectual, neurológico e emocional; aprender a andar é uma das nossas inúmeras odisseias nesse mundo; é assim no começo e será assim no final, quando nossas pernas voltarem a ter dificuldades para nos sustentar.

Cada um de nós não passa de mero expectador das batalhas uns dos outros; quer sejam elas assumidas ao longo de toda uma existência de forma intencional; quer sejam infringidas de forma inevitável. Por mais que tentemos compreender, aceitar ou acolher as experiências bem ou malsucedidas de nossos semelhantes, a nossa interpretação será sempre inadequada e rasa. A dor do outro não pode ser sentida por nós, pode apenas ser imaginada. As conquistas do outro não podem causar em nossas rudimentares maneiras de sentir, a ebulição emocional vivida por nossos irmãos. Somos tão impermeáveis quanto infantis nessa capacidade de tocar as graças e desgraças alheias. Criaturinhas encapsuladas, desesperadas por nos proteger do perigo de falhar ou de compreender as falhas alheias.


Vivemos atropelando os dias; desperdiçando nosso tempo com preocupações tolas e vazias. Deitamos nossas cabeças em travesseiros mais ou menos macios; repousamos nosso corpo físico onde nos for possível, às vezes é uma cama luxuosa que nos recebe; outras vezes é o chão da rua. Em qualquer dos casos, a maioria de nós não é capaz de refletir sobre o que fez, pensou ou disse ao longo de cada precioso dia. E, pela manhã, repetiremos o mesmo estranho ritual de viver como se não pudéssemos responder por nossas próprias escolhas.

Assim é que, sem que nos demos conta, o organismo que chegou a esse mundo tão frágil e dependente, vai sofrendo incontáveis metamorfoses. Cada célula do nosso corpo sofre alterações irreversíveis, que tanto nos conduzem a conquistas de evolução, quanto nos fazem adoecer e fragilizar nossa capacidade de pensar e agir.

A menos que nos aconteça de morrermos jovens, é com a nossa versão mais frágil que teremos um encontro marcado e intransferível para o fim da jornada. Tomara que sejamos capazes de aproveitar a viagem. Tomara que ao nos despedirmos a vida na Terra possamos nos orgulhar das escolhas feitas. Tomara que antes de fecharmos os olhos pela última vez, possamos ter ao alcance de nossas mãos alguém a quem amemos e que nos ame para um último abraço. Porque a nossa despedida é inevitável, mas a maneira de deixarmos essa vida será constituída por todas as grandes e pequenas escolhas que fizemos ou que nos abstivemos de fazer.

Baixe o aplicativo do site O Segredo e acompanhe tudo de pertinho. Android ou IOS.

Texto escrito com exclusividade para o site O Segredo. É proibida a divulgação deste material em páginas comerciais, seja em forma de texto, vídeo ou imagem, mesmo com os devidos créditos.




Deixe seu comentário

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.