Comportamento

“Já ficamos um ano sem aula. Mais um é inaceitável”: o dilema das escolas que reabrem na pandemia

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A difícil escolha de pais e professores que se equilibram na corda bamba entre o medo da infecção por covid-19 e a ausência de aprendizado das crianças e adolescentes.



O início de 2021 é marcado pela dúvida de pais e profissionais da área educacional: as escolas devem reabrir ou não? A pandemia ainda está longe de se encerrar, a vacinação caminha a passos lentos, mas muitas famílias sentem que não existe mais a possibilidade de manter seus filhos em casa. Sob o risco de perder mais um ano, muitos pais escolhem o retorno às aulas como única saída viável.

Segundo reportagem do El País, os governos de pelo menos dez estados do Brasil marcaram o retorno às aulas para fevereiro, enquanto o Distrito Federal e outros cinco estados deixaram para março. Ainda sem um plano efetivo de vacinação e, muito menos, um calendário, as famílias escolhem se arriscar, já que muitas perderam o auxílio emergencial e não têm mais condições de ficar em casa. Além disso, muito se tem discutido sobre o desenvolvimento emocional dessas crianças, que estão há quase um ano sem contato com outras.

As estratégias adotadas pelas instituições, em sua maioria da rede privada, consistem em manter regras de distanciamento social, uso de máscaras e higiene pessoal, com no máximo 35% dos alunos por vez, o que implica em revezamento dos estudantes. As escolas precisam promover esse rodízio diário, alternando entre ensino presencial e remoto, para garantir que o número de alunos não ultrapasse a capacidade determinada.


A pediatra Ana Escobar, que apoia o início imediato das aulas, afirma que manter as escolas fechadas não é garantia de proteção para as crianças na pandemia, deixando-as vulneráveis a outras situações, como desnutrição, violência e déficit de aprendizado.

Para ela, é inaceitável mais um ano sem que as escolas funcionem, e o ensino deve voltar como garantia para que as crianças mais vulneráveis consigam aprender, tenham onde ficar e possam se alimentar.

Depois de analisar os protocolos de segurança estabelecidos pelo governo paulista e o município de São Paulo, a médica concluiu que as medidas tomadas pelas escolas, no ano passado, são suficientes para garantir um retorno seguro em 2021. Ela afirma que tanto as instituições públicas quanto as privadas fizeram adaptações importantes e se prepararam de forma eficaz para esse retorno.

Ana Escobar compara o retorno às aulas em outros países e é categórica ao afirmar que isso não causou explosão no número de casos, em nenhum lugar houve constatação de causa e efeito. Como, estatisticamente, a transmissão do coronavírus é consideravelmente menor entre crianças e os casos que evoluem para quadros graves nessa faixa etária são raros, a volta não pode ser adiada.


A pediatra explica que os pais também precisam estar preparados para o eventual fechamento das escolas novamente, já que o nível de transmissão é alto e a necessidade de afastamento não dura muito tempo. A dinamicidade da doença pode fazer com que as instituições se abram e fechem com muita rapidez e facilidade. Mas, para ela, o correto é que as escolas sejam as últimas a se fechar e as primeiras a abrir, já que é de extrema importância que as crianças tenham onde permanecer que seja seguro.

O infectologista Marcelo Otsuka, vice-presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo, concorda que não devemos mais esperar para reabrir as escolas. Ele afirma que, nesses casos, a sociedade deve ser encarada como prioridade e que todos devem voltar seus esforços para as crianças voltarem com segurança às aulas.

Marcelo acredita que a população e o poder público deveriam se esforçar mais para conter a pandemia, isso garantiria um retorno ainda mais seguro para as crianças. De acordo com o infectologista, é um absurdo que a condução pública continue lotada e o comércio e os bares permanecerem abertos. As prioridades deveriam ser invertidas, fechando o comércio e os bares para que as escolas fossem as primeiras a abrir.

Não existem apenas opiniões favoráveis ao retorno das aulas, os sindicatos, em sua maioria, são contra a reabertura, afirmando que muitas instituições possuem condições estruturais precárias, incompatíveis com as medidas que precisam ser adotadas para que a infecção seja contida ou minimizada.


A presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Maria Izabel Noronha, explica que 82% das escolas não têm mais de dois sanitários para uso estudantil, e 48% não têm sanitário acessível para pessoas com deficiência, 13% não têm quadra, e 11% não possuem pátio.

Essa fragilidade na infraestrutura das escolas de São Paulo faz com que os professores e profissionais da rede de educação não queiram retornar, neste momento, temendo que a exposição leve a complicações.

De acordo com o Plano Nacional de Imunização, os professores só serão imunizados depois dos profissionais da saúde, dos idosos, da população indígena, das comunidades ribeirinhas e das pessoas com comorbidades, porém a data ainda não foi definida.

No fim de 2020, a pressão pelo retorno das aulas aumentou depois que um manifesto assinado por mais de 400 pediatras e um movimento de pais e escolas pediam o retorno imediato das aulas presenciais. Mas as incertezas continuam, tampouco existe consenso entre o poder público, as escolas e os professores. Cada família tem lidado com a situação da forma que consegue, tendo de se desdobrar para enviar o filho para as aulas presenciais e ainda acompanhar as remotas.


Outras famílias, principalmente as mais vulneráveis, precisam que as escolas reabram, pois assim seus filhos não precisariam ficar na casa de terceiros, onde também estão suscetíveis ao vírus. A ausência do auxílio emergencial fez com que cerca de 35% das mães solo no Brasil não tenham dinheiro para se alimentar, enquanto outras milhares estão entrando na linha da pobreza ou extrema pobreza.

 

Direitos autorais da imagem de capa: Depositphotos.


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