Esconder a idade é negar sua história

Cada aniversário serve para lembrar que estamos neste mundo para viver, e que devemos viver cada ano com abundância. Por isso, nada de fingir que não vivi.

No último mês dos trinta e nove anos, escutei alguns comentários interessantes sobre a idade que estava por chegar. Eram mistos de interrogações e exclamações do tipo: “Já?!”, “Nem parece!”, “Tens jeito de menina!”, entre outras. Inicialmente, fiquei lisonjeada, tomando como elogios aquelas frases. Até que comecei a refletir sobre o assunto.

Por que aparentar menos idade é considerado algo positivo? Possivelmente, juventude esteja relacionada com beleza – o que de fato não é real. Talvez esteja associada à fertilidade – e aquela exigência da procriação. Ou ligada a liberdade de escolhas – o que, em muitos casos, só é conquistado na maturidade. Isso vale para os homens também, ou só para as mulheres?

Numa dessas conversas pré-aniversário, uma mulher de mais de sessenta anos admirou-se com o fato de eu comemorar a chegada dos “enta”.

Hoje é tudo mais aberto, disse ela. Lembrei de uma expressão investida de cavalheirismo, mas que hoje me soa bastante preconceituosa: “Não se pergunta a idade de uma mulher”. Oras, por que não? Talvez por causa de frases como essa, encrustadas na nossa cultura, as mulheres se constranjam em falar suas idades. Cresci escutando essas coisas e, antes dos trinta, comecei a omitir quantos anos eu tinha, para evitar que no futuro as pessoas calculassem minha idade. Durante vários anos coloquei uma vela com formato de interrogação sobre meu bolo de aniversário.

Pois agora, aos quarenta, percebi que todas essas tolices são maneiras sutis de cercear as mulheres, fazendo-nos fingir ser o que não somos, envergonhar-nos de quem realmente nos tornamos com o passar do tempo.

Hoje penso que mentir ou omitir a idade é negar a própria história.

Quando era uma menina, queria crescer logo. Agora que sou uma mulher, quero ser vista como tal. E isso implica arcar com as consequências de minhas escolhas ao longo dessas quatro décadas. Essas consequências podem ser físicas, emocionais, profissionais, psicológicas. Enfim, elas são resultado de tudo o que vivi até aqui. E são motivos de orgulho e de gratidão pelo aprendizado que me proporcionaram.

Aquela garotinha de dez anos ainda vive aqui dentro. Foram os sonhos dela que impulsionaram as ações da garota de vinte, que ajudou a forjar a moça de trinta, que conduziu a chegada da mulher de quarenta – que levará ao encontro da senhora de cinquenta, sessenta, setenta e quantas décadas mais me forem reservadas.

Não abro mão de nenhuma dessas mulheres. É por todas elas que decidi assumir, divulgar, celebrar essa mudança de década.

E se outras meninas, garotas, mulheres quiserem me acompanhar, serão bem-vindas. Cada aniversário serve para lembrar que estamos neste mundo para viver, e que devemos viver cada ano com abundância.

Por isso, nada de fingir que não vivi. Quero contar as muitas histórias que esses quarenta anos me proporcionaram viver e viver mais quantas histórias me forem possíveis contar.


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