Escute o que ela não diz: sobre os gritos que a depressão cala…



Sobre os gritos que a depressão cala…

Não! Isso não é um deslize. Ela não se aprontou para sair, está com roupas velhas, com o cabelo preso de qualquer jeito porque acabou de correr alguns quilômetros na sua própria imaginação. Isso não é um engano, não é a porta dos fundos da sala de cinema. Não, ela não está confusa, sabe bem das ideias que andam atormentando sua mente. Não, ela não é ingrata pelo tanto que tem, ela só não consegue sorrir.

Ela está fantasiada de medo, apavorada com o desconhecido que sua própria sorte anda a produzir. Não, você não está lendo errado. Ela não é pessoa de mentir, mas já silenciou sua alma para não chorar na sua frente e já fingiu estar tudo bem para não te preocupar.

Vasculhando bem o passado, garanto que houve um bocado de momentos bons, mas em muitos foi dolorido demais para ela saber que continua sem rumo e sem manche. Sim, ela está apavorada e está sozinha, mesmo quando está rodeada por tantos outros. Você que a enxerga, mas não a vê, trate de abrir seus olhos. Ela está aqui, exausta de tanto tentar falar sem usar as palavras.

Não, ela não consegue se explicar direito. Tem uma pedra pesada demais atormentando suas vontades de expressão. Pense num rio de margem rasa e meio fundo. Ela está no fundo, está se afogando. É isso, é isso! Escute o que ela não diz! Ela está sufocando com as águas encharcando seus pulmões. Não tem ar, não entra e nem sai por mais que ela respire. É que ela está submersa e tudo acontece em câmera lenta, que é para alguém notar os detalhes. Note, anote, tente tirá-la da água.

Não é frescura, não! Antes fosse, ela há de pensar. É coisa que nem tem nome ainda, é quando a alma se cansa de existir e aí ela simplesmente começa a dar sinais de exaustão. Não é preguiça também. É só uma tortura morando dentro dela, alguma coisa que faz com que ela se esqueça de que a vida tem a cor que a gente pinta.

Não é falta de fé em Deus. É falta de fé nela. É uma depressão, um buraco fundo, um fim de mundo. É o tormento de continuar, é o medo de falhar, de sofrer, de chorar. É a vergonha de contar tudo, de abrir o jogo. É não querer decepcionar os outros. É segurar esse choro preso na garganta dando nós doloridos de desespero.

E não acontece só com os outros, não. Acontece com ela também e ela é sua amiga, sua vizinha, sua colega de trabalho, sua professora, sua aluna, sua prima, sua filha ou sua mãe. Ela representa toda a humanidade que, na fragilidade que lhe é intrínseca, não consegue se expressar, não sabe para onde ir e nem aonde quer chegar.

Sabe, ela anda tentando se salvar como pode, mas na beira do colapso já pensou em coisa mais rápida de se resolver. É que ela nem gosta de falar que é para não atrair, mas já foi seriamente confrontada com seu pulso famigerado pulsando vida quase inútil. E precisamos conversar sobre isso tanto quanto precisamos discutir sobre política, futebol, cinema e educação!



Então, fale com ela, entenda o que ela grita em berros de alma. Não fique a bradar nenhuma dessas palavras de consolo, prefira declamar um poema. Não tente animá-la porque seus ânimos andam à flor da pele. Esqueça as teorias todas e pratique a humanidade de um colo aconchegante.

Sente-se ao lado dela, mesmo que ela diga que não precisa, que está tudo bem. Fique, mesmo que ela insista para que você vá. Estenda sua mão a ela, ainda que ela grite que prefere segurar a solidão. Dê-lhe um abraço apertado até que o corpo rijo e frio de dor amoleça e se entregue ao afeto que protege e que cura. Esteja lá para o que der e vier de verdade, sem jogar as palavras ao acaso. Ser amigo, namorado, marido, pai, filho não é só nome no papel, não é só status na rede social; é coisa para valer mesmo, é caminho que o coração faz até o outro.

Então é isso! Não desista dela e esteja lá porque tem muito vento fazendo companhia e, à noite, ele é frio e assustador…

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Direitos autorais da imagem de capa: Ruslan / 123RF Imagens






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