Espere seu pai no portão

5min. de leitura

Pela manhã, o telejornal noticiou a morte de um pai de família, que havia saído de casa bem cedo com sua bicicleta, no intuito de comprar pão para o café da manhã com sua família. Havia um buraco na pista, chovia muito forte, e num golpe fatal do destino, o homem caiu no vácuo da pista, e bateu com a cabeça no asfalto, perdendo sua vida naquele infeliz instante. Me causa tremor em imaginar a cena, a irrevogável dor da família que o esperava impaciente e depois se depara com o golpe inimaginável do destino. Mas quem pode prever uma fatalidade como essa? Onde reclamar agora pela família desestruturada e traumatizada? Onde buscar conformação e força para seguir?



Apenas mais uma entre milhares de semelhantes histórias infelizes…

Lamentamos, nos indignamos, refletimos por um instante sobre a vida e suas “surpresas”, porém, passados alguns minutos voltamos à nossa zona de conforto: vamos ao trabalho, nos afundamos nos infinitos afazeres do dia a dia e no tempo ocioso abstraímo-nos em nossos smartphones, viajando pelo universo de informações contidas nas redes sociais. Mal ouvimos o que nos falam, não notamos mais expressões, mal olhamos para o céu, a não ser para reclamar do mau tempo ou do calor infernal, deixamos de ter uma mente contemplativa e somos assim “sequestrados” e “aprisionados” no mundo da superficialidade, onde impera a lei do ter e do expor uma vida perfeita de sucesso e sem crises. Selfies ostentando bens materiais, sorrisos e uma vida plena, legendas de autoajuda, versículos bíblicos, reflexões, frases de motivação e autoafirmação, copiadas de um site qualquer, com a finalidade de obter o maior número de curtidas possíveis, porta de entrada para o grupo dos populares e invejados.

Colecionamos “likes” e não mais momentos. A preocupação em expor uma vida plena é maior do que vivê-la em sua essência. Isso inclui postar fotos na academia, fotos dos pratos saudáveis que preparamos, dos lugares que frequentamos, de nosso closet recheado de novidades para compor looks incríveis, das viagens, momentos “em família” (ao menos para as fotos), trabalhos sociais que realizamos (afinal que relevância terá se não for divulgado?), dos eventos que participamos, enfim… tudo vira “notícia”. Nos transformamos em ilusórias celebridades em que nós mesmos somos os paparazzi, verdadeiros narcisistas, adoradores da própria imagem. E assim criamos a falsa ideia de que estamos de fato vivendo, enquanto estamos imersos no oco, no inútil conceito de sucesso composto por bens que se adquire e se expõe ao mundo. A hipocrisia de registrar sorrisos com uma pessoa próxima, postar nas redes e segundos depois sequer conversar e proporcionar-lhe a atenção merecida longe dos smartphones, que já tornaram-se extensão do próprio corpo.


Quanto ainda teremos que perder para acordar do pesadelo da superficialidade? O que mais precisa acontecer para nos libertarmos da epidemia de futilidades que instalou-se em nossa rotina? Será que quando despertarmos veremos que o tempo passou impiedosamente? Roubando-nos momentos que jamais retornarão e nos fazendo sentir o vazio existencial que a vida nos impõe como uma espécie de punição quando não a valorizamos de forma correta? Será que nossas mães ainda estarão a nos esperar com a mesa do café   posta, aguardando o pão quentinho que nosso pai foi buscar, enfrentando o vento e a chuva apenas para desfrutar de nossa companhia em uma breve refeição? Será que ele vai voltar? Ou como a família citada no noticiário da manhã, vamos nos deparar com a irreparável dor do adeus?

O incerto decorrer da vida não nos fornece garantias…

Espere seu pai no portão e o abrace como se esse fosse o último que a vida lhe concederia. Pois quando esse momento chegar (infelizmente pela lei vida ele vai chegar), não existirão arrependimentos e sim saudades e lembranças eternizadas. Não seja um mero expectador…


Apressa-te em viver…. Já se passou bem mais tempo que gostaríamos.

Baixe o aplicativo do site O Segredo e acompanhe tudo de pertinho. Android ou IOS.





Deixe seu comentário

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.