Espiritismo e ecologia: caminho para a sustentabilidade ético moral

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O tema defende a necessidade do espírito encarnado despertar para a educação ético moral ambiental como um passo importante para o equilíbrio da Terra, um orbe entre as inumeráveis moradas do Pai, que carinhosamente nos hospeda e oportuniza evolução. Além disso, a proposta também enfatiza que tudo tem uma função na enorme cadeia da criação divina. Essa teia desconhecida de inter-retro-conexão que sustenta tudo e todos. E nos tempos atuais de transição planetária, se faz cada vez mais necessário se sentir como uma totalidade orgânica e integrada de Deus.



Alguns cientistas descrevem o Universo como um conjunto de fenômenos interligados e interdependentes que interagem a todo instante. O ser encarnado está imerso nessa rede de interação infinita. E olhar o mundo material com essas lentes significa utilizar a visão sistêmica proposta por Allan Kardec e por Capra como ferramenta para compreensão do todo. No entanto, quanto mais fortes os laços que ligam a mente encarnada ao mundo material, mais esta o interpreta de forma fragmentada.

A composição material de cada orbe está intrinsecamente relacionada com os elementos que compõem a constituição física dos corpos das variadas espécies de vida que ele comporta. O equilíbrio entre esses elementos e suas reações possibilitam a vida no planeta, estabelecida numa relação de grande reciprocidade e interdependência. Nessa relação, a vida na Terra é formada por um emaranhado complexo, cujo segredo de manutenção e desenvolvimento reside exatamente na diversidade de ambientes e de espécies que é produzida por esse sistema.

As condições, de temperatura, clima, vegetação, altitude, pressão, relevo, etc., são determinantes para a manutenção da vida na Terra. Qualquer alteração nos seus elementos constitutivos pode gerar extinções de espécies, desequilibrando a biodiversidade e afetando diretamente a condição de vida dos espíritos aqui encarnados.  A água e o ar, por exemplo, são essenciais para a existência humana, e a preservação das suas condições ideais é de fundamental importância para a manutenção da vida. Sendo assim, quando o ar está poluído, a água contaminada e o solo infértil, o encarnado sofre diretamente essa alteração e não consegue sobreviver.


A literatura é vasta nos alertas da espiritualidade para que haja mais amor e comprometimento com a vida na casa planetária.

E essa nova atitude passa por entender que o ser encarnado e o planeta se confundem. Nesse estágio evolutivo, o que acontecerá nos próximos anos, na escala temporal de existência carnal, definirá a qualidade de vida dos futuros encarnados na Terra. André Trigueiro, em seu livro Espiritismo e Ecologia, lembra que os espíritas se posicionam contra a eutanásia, aborto e suicídio. E sobre o ecocídio?

Quando o encarnado não faz uma reflexão sobre o seu papel ambiental, ele está sendo omisso. Em O Livro dos Espíritos, obra basilar do Espiritismo, encontramos vários ensinamentos sobre a responsabilidade que nos cabe pela omissão de atos para prática do bem. Cada indivíduo será punido não só pelo mal que haja feito, mas também pelo mal a que tenha dado lugar (LE, 639). Ou seja, não basta que o homem não pratique o mal; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem (LE, 642). Em boa síntese, o Espírito sofre por todo o mal que praticou, ou de que foi causa voluntária, por todo o bem que houvera podido fazer e não fez e por todo o mal que decorra de não haver feito o bem (LE, 975).

No Evangelho Segundo o Espiritismo, Santo Agostinho descreve um mundo ético moral de regeneração que será o futuro da Terra, porém existem os aspectos físicos do planeta que precisam ser levados em consideração. As gerações futuras de encarnados podem se deparar com um cenário físico desesperador. E analisando o nosso momento atual, concluímos que somos suicidas indiretos do planeta que devastamos, pois consumimos da terra que degradamos, bebemos da água que contaminamos e respiramos do ar que poluímos. Somos frutos das nossas escolhas: infelizes ou felizes. Somos resultado das nossas opções, imorais ou morais, ecologicamente viciadas e ecologicamente saudáveis.


Nota-se desse encadeamento de ideias, que Ecologia e Espiritismo tem muito em comum. Tanto o espiritismo como a ecologia surgem na segunda metade do século 19.

O Espiritismo com Allan Kardec na França e a Ecologia com Haeckel na Alemanha. Tanto o espiritismo como a ecologia enxergam de maneira sistêmica, conforme trecho do livro A Gênese: “tudo no Universo se liga, tudo se encadeia; tudo se acha submetido à grande e harmoniosa lei de unidade, desde a mais compacta materialidade, até a mais pura espiritualidade.”

As mensagens do Evangelho são revolucionárias no aspecto de conquista moral na diferenciação do que é necessário e do que é supérfluo. No Livro dos Espíritos é questionado como o homem pode saber o limite do necessário. A resposta é categórica: “Aquele que é sábio o conhece por intuição. Muitos só chegam a conhecê-lo por experiência e à sua própria custa” (LE, 715). No quesito seguinte, o esclarecimento é no sentido de que a Natureza traçou limites, mas o homem é insaciável diante dos vícios que lhe alteram a constituição e criam necessidades ilusórias (LE, 716).

Da análise desses quesitos do Livro dos Espíritos resta evidente que é necessário saber o que fazer sob o ponto de vista ético moral sem prejuízo da morada que nos foi designada. O encarnado que não considera a responsabilidade de reverter a situação nefasta ambiental atual, provavelmente, será cobrado pela própria consciência, quer ele reencarne aqui mesmo ou em outro planeta. Afinal, para concluirmos o aprendizado que a Terra nos oportuniza, intelectual e moral, muitos de nós ainda precisaremos reencarnar aqui, ficando então ligados ao planeta quando desencarnarmos. Nesses períodos de erraticidade, aspiramos por pertencer a comunidades de espíritos simpáticos, sob o amparo e orientação de espíritos mais elevados, onde formaremos verdadeiros lares, dando continuidade ao aprendizado que nos possibilita o constante crescimento e nos preparando para o futuro retorno.

E o Planeta-lar que nos acolherá outra vez, como estará? Estará conforme as ações que praticamos ou deixamos de praticar quando encarnados, nos oferecendo condições físicas de habitação, boas ou ruins, em consequência das nossas atitudes. Despertemos então para a necessidade do cuidado e zelo por esta Morada, e que, aqui e agora, realizemos escolhas ético morais, incluindo vencer os desafios ambientais inerentes a este plano, concorrendo para moldar o espírito sempre para melhor.

No aqui e agora, cuidemos do nosso Lar.


Referências – BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: O que é – O que não é. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.  – CAPRA, Fridjof. Alfabetização ecológica: a educação das crianças para um mundo sustentável. São Paulo: Cultrix, 2006.  – CAPRA, Fridjof. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix, 2002. – GOLEMAN, Daniel. Inteligência ecológica: o impacto do que consumimos e as mudanças que podem melhorar o planeta. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.  – GOSWANI, Amit. O ativista quântico: princípios da física quântica para mudar o mundo e a nós mesmos. São Paulo: Aleph, 2010.  – KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Araras, SP: IDE, 2009. – KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2012. – KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2009.  – TRIGUEIRO, André. Espiritismo e ecologia. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2009.  – VILLARRAGA, Carlos Orlando. Espiritismo e desenvolvimento sustentável: caminhos para a sustentabilidade. 1 ed – Brasília: FEB, 2013.  

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Direitos autorais da imagem de capa: rolffimages / 123RF Imagens

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* Matéria atualizada em 23/04/2017 às 4:14






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