Estou cansada de ser forte…



Não é que eu não dê conta. Eu dou, eu dou conta de todas as contas, incluindo as que nem são minhas. Mas não é mais uma questão de poder, é de querer. Estou cansada de ser forte.

Coloco um Pearl Jam para tocar, enquanto arrumo minhas coisas, na esperança pálida de tentar arrumar tudo, tudo que há tempos está fora do lugar. “Outra vez”, é só o que consigo pensar.

Outra vez me vou, sem nem saber ao certo para onde devo ir. Mais uma vez deixo coisas para trás; pessoas para trás; e boa parte de mim. Mais uma vez, nada do que planejei saiu como esperado. Mais uma vez, vou dizer adeus com o coração apertado. Retratos e sonhos rasgados. Que agora já fazem parte do passado.

Um passado que era “logo ali”, que era tudo que eu tinha até ontem. Mas, a vida é isso aí, por mais louco e inexplicável, temos que ter a compreensão de que uma hora atrás já não faz mais parte do presente, e que tudo que um dia fomos para alguém, assim, de uma hora para outra, deixa de existir.

Pessoas se perdem o tempo todo, pessoas se encontram, todo o tempo. Gente chega, gente vai, gente decide ficar para sempre e o tempo continua a correr, como se não se importasse.

Já fiz as malas muitas vezes, já me desconstruí, já me reergui, dei a mim mesma o direito de desistir.  Já desfiz as malas incontáveis vezes, já perdoei, recomecei, aprendi.

Mas confesso que estou cansada. Não queria mais arrumar nada, gostaria de ter alguém que me sorrisse e dissesse para eu ficar despreocupada, que logo mais tudo se ajeita.

Estou cansada de encher malas, mas minha alma permanecer vazia. Estou cansada de trocar de endereço, de sonhos, de companhia.  Cansada dos recomeços, da estrada… de tudo que fui, um dia.

Estou cansada de ser forte, o tempo todo. De escorar as ruínas para que os outros não desabem, de arrumar a bagunça que os outros deixam, de me recompor e segurar a onda. De mandar seguir o baile como se não ligasse a mínima.

Estou cansada de usar as asas, tudo que eu queria era um galho forte para fazer ninho pousar.

Não posso mais carregar o mundo nas costas. Das minhas dores e machucados, quem cuida?

Cansei de trazer todo mundo, gostaria de alguém para me levar.

Cansei de responder que está tudo bem, quando o que eu quero mesmo é pedir colo. Por mais que me vire bem, e que tenha aprendido a não esperar nada de ninguém, não vejo mais tanta graça na estrada, quero um ombro amigo me esperando, um porto seguro para chegar.

Cansada de casas, que não são lar; de gente que está, mas que não permanecerá, de amores tão frágeis que se vão sem dignidade, sem um único adeus dizer.



Cansada de rodar o mundo atrás de uma coisa que eu nem sei mais se vou encontrar.

Por mais que a solidão me seja boa companhia, meu coração muito gostaria de encontrar alguém para compartilhar e seguirmos juntos, até o fim dos dias.

Não é que eu não dê conta. Eu dou, eu dou conta de todas as contas, incluindo as que nem são minhas. Mas não é mais uma questão de poder, é de querer.

Não preciso mais provar o quanto sou forte, nem para mim mesma, nem para o mundo. 

Lembro de cada luta e cada vitória, mas está na hora de fabricar novas memórias, deixar os campos de batalhas para trás.  Não quero mais levantar acampamento, jogar-me ao vento, perder as telhas para ganhar as estrelas.

Chega de romantizar o sofrimento. Eu mereço telhas firmes, estrelas que eu possa admirar, paredes com amor dentro.

Cansei de remar contra a maré, de voar contra o vento, de dizer que é por esporte, todo esse meu desalento, quero terra plana, sol pela manhã, chuva só para refrescar.

Já enfrentei tempestades fortes demais, estive à deriva em alto mar. Daqui para frente, quero as calmarias das tardes de primavera, um amor à minha espera e uma rede na varanda.

Acordar na paz de saber que tudo está, finalmente, em seu devido lugar.


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: 123RF Imagens






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