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Eu me amo – porque amor próprio é afrodisíaco!

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Era 1999, eu acho. Eu devia ter uns dez anos, e a professora da quarta série pediu que escrevêssemos um livrinho autobiográfico, com fotos que ilustrassem cada ano de vida. Fucei as gavetas de fotografia da casa dos meus pais – a rinite reclamando desde a mais tenra idade – e separei com afinco as fotos mais bonitinhas em ordem cronológica.



Eu abraçando a minha irmã, nós duas vestindo as camisetas dos nossos pais, andando de triciclo, dançando. Fiz aquilo com muito prazer. Modéstia à parte, fui uma criança bem bonitinha. Daquelas com cara de anjinho, sorriso tímido, olhar danadinho, cabelos bem escuros, pele incrivelmente branquinha e bochechas rosadas – um contraste que chamava a atenção. Ainda por cima, fui prodígio – coisa que acho um pé no saco, mas que é o sonho de nove entre dez pais –, daquelas que já liam aos quatro anos, escreviam historinhas infantis aos seis, ganhavam concursos de redação aos oito e versavam sobre os horrores do holocausto aos dez.

Minhas habilidades à parte, desde o dia em que tive que fazer a tal da autobiografia e fiz com muita satisfação, ganhei a alcunha de “Bruna-eu-me-amo” na família. É eu abrir a boca pra contar, na maior inocência, algum episódio em que eu tenha sido bem sucedida, que alguém já solta ironicamente um “ah, como eu me amo…”. Com ar de zombaria, como se gostar de si próprio fosse algo condenável. Como se eu, Narcisa Grotti, estivesse condenada a morrer afogada admirando a minha própria imagem à beira de um lago na Grande São Paulo. A sorte é que eu sempre levei na esportiva, como levo quase tudo nessa vida. Aconteceu ontem, no almoço de domingo. E aí que minha mãe fez jus à psicóloga que ela é e entrou em minha defesa com o mais clichê dos argumentos.

Qual o problema da menina se amar? Gostar dela é primeiro o trabalho dela, pra depois ser o dos outros. E se ela não gostar de si própria, não vai ser capaz de gostar de mais ninguém.


Aplausos pra mãe diva que eu tenho. O cerne da questão é justamente esse: qual o problema em amar a si próprio? Isso não faz de ninguém um automático e incurável narcisista. Há uma linha – não tão tênue assim, amigos – entre amor-próprio e narcisismo. Amor-próprio é necessário para sustentar a autoestima diante dos percalços da vida, para creditar a si mesmo pelas próprias vitórias e para que se possa, inclusive, admitir a parcela de culpa nas derrotas – em vez de sair blasfemando aos quatro cantos que ele não presta, que ela me usou ou que é culpa da lua em Escorpião e do mercúrio em Sagitário.

Amor-próprio é o que impede que você junte seus trapinhos com o primeiro ser disposto que passar na calçada simplesmente para curar a sua carência. O narcisista, enquanto isso, é bom demais pra admitir um erro, pra enxergar o acerto alheio, pra desviar o olhar do espelho e olhar para o coitado que passa pela calçada, pra perder tempo lendo esse texto – quem dirá para amar mais alguém?

E aí, o argumento de qualquer um que me chame de narcisista cai por terra, porque eu sou capaz de amar até o carteiro feinho que toca a campainha sorrindo – afinal, ter amor-próprio, muitas vezes, requer abstrair a carcaça e enxergar o que tá lá dentro. Não é possível que não haja nada de bonito em alguém – inclusive em você. Mas, distúrbios psicológicos à parte, a moda hoje é subestimar a si mesmo e fingir que se acha um bosta, só pros outros jogarem confete. Tô gorda, meu cabelo tá horroroso, minha bunda tá cheia de celulite, minha pele tá oleosa.

É a superestimação do desamor-próprio. É mendigar elogios, em vez de aproveitá-los quando forem sinceros. Se ele fala que meus lábios são muito bonitos, é charmoso eu dizer que imagina, são seus olhos. Se ela diz que meus cabelos são muito brilhantes, eu jogo toda a responsabilidade sobre o shampoo novo – aquele do Celso Kamura, um bafo, menina. Se ele elogia meu canto, eu respondo que quem cantava mesmo era a Elis Regina, sempre me esquivando das minhas qualidades.


E quem há de discordar? Se nem você acredita nas suas virtudes, não é o meu trabalho acreditar. Por isso, da próxima vez em que, depois daquela transa fenomenal, o cara disser que sua bunda é maravilhosa, pense muito bem antes de se menosprezar e responder que imagina, ela é pequena, caída e cheia de celulites. Elogio sincero, minha filha, foi feito pra ser aceito de bom grado. Se tu não quer, tem quem queira. E amor-próprio é afrodisíaco. Com o perdão do uniforme marrom-cor-de-bosta, vai dizer que eu não fui realmente uma criança muito bonitinha?

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Por: Bruna Grotti –  Suspiros e Desatinos

 


 

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