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Eu não sei ser metade. é difícil não ter uma temperatura morna.

Sou um homem por um fio, e talvez isso me torne mais humano, um humano que vive ou morre mais que todo mundo a cada dia, que se importa com detalhes, coisas pequenas, mas que ainda são coisas. Um homem por um fio.



Quantas nuvens há no céu? A janela à minha frente não diz. Está escuro lá fora. A mania de procurar o sol não passa, mas o medo de dançar na chuva também não vai embora. Quando foi que essa bagunça começou?

É difícil ser assim. É difícil não ter uma temperatura morna. A gente quer sempre o quente, fervendo, ou o frio, congelando.

E não dá! Às vezes, não dá. A gente tenta mergulhar num mar que dá pé com folga, a gente se joga sem paraquedas, tenta voar sem asas, bate a cara numa porta que acreditava estar aberta. Ah… é a tal da intensidade.

Ser intenso é pisar no acelerador: 140 km/h. Dançar naquela balada até a última bolha do pé sangrar.


Só que tem uma hora que a gente freia, não é? Desce das sandálias e desanima, solta a corda que pesa demais, vai do tudo para o nada de uma vez só.

É que nós não sabemos medir. Se amamos, amamos muito e nos doamos muito, independente de rótulos de merecimento.

Se odiamos, odiamos demais. Se falamos, acabamos por dizer o que não devemos, com medo de deixar as palavras aprisionadas e nos sufocar.


Mas quando a gente solta a corda… a terra passa de marrom a branca, o tomara-que-caia vira casaco, a coragem dá lugar ao medo. Passamos uma corrente com cadeado no coração, e ele bate bem fraquinho, tremendo de frio.

É, ser intenso é difícil demais! Qualquer situação é um risco, quanto mais alto se chega, mais se sente falta do chão.

Nós não conhecemos uma brisa gostosa, nem outono, nem primavera. Ou é verão ou é inverno. E não adianta tentar mudar. Depois de uma medida de coragem, a gente se joga, e, quase sempre, cai em um mar raso.

Não sou intensidade, a intensidade que me é em forma de pessoa. E demorou para que eu aprendesse a me amar, com todo o eu que cabe nessa corda-bamba.

Eu não sei ser metade, sou um homem por um fio, e talvez isso me torne mais humano, um humano que vive ou morre mais que todo mundo a cada dia, que se importa com detalhes, coisas pequenas, mas que ainda são coisas.


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: 123RF vadymvdrobo

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