Eu não sou louca, eu transbordo!

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Caramba! Como é difícil transbordar. Não havia me dado conta do quão anormal é sentir. Sou intensa, sempre fui. Mas isso passou a ser prejudicial às pessoas que eu gosto. Preciso parar, preciso controlar.



Não consigo só sentir, o amor é mesmo para quem aguenta uma sobrecarga psíquica, como diz meu querido Bukowski. Sim, amor! Não sabia que dava tanto trabalho amar e como pode ser ruim para quem não aguenta receber em grande escala.

Quantas vezes já foi dito que o amor não existe? Ou que não se pode acreditar em quem ama? “Ah, mas você é muito nova pra saber o que é o amor.” “Você não ama. Você é louca.” O amor está mesmo longe de ser entendido. Quem não se entrega nunca vai entender como é. Sou nova, sim.

Posso ser louca também. Pouca gente vai se identificar com isso. Mas, não é minha intenção. Não quero me justificar, foi só uma forma que achei para me descarregar. Eu transbordo! Eu amo!

A primeira vez que aconteceu foi na adolescência, não fazia ideia do que era… E quando vi, mudei de escola para ficar perto da primeira “vítima” do transbordo que eu sou. Mas foi fácil esquecer, logo mudei de cidade e a distância me fez esquecer e superar. Achei que era coisa da idade, que jamais aconteceria novamente. E não aconteceu mesmo. Não do mesmo jeito, não na mesma intensidade. Passaram-se alguns anos, nova cidade, novas pessoas. Tudo a flor da pele.


Ainda jovem, porém, mais madura. Não precisava acontecer da forma louca que aconteceu aos 16 anos. E não aconteceu. Foram dois anos de amizades, paixões, sempre intensas. E quando menos esperei… Outro transbordo, às vezes acho que vou acumulando tudo e quando não cabe mais em mim, alguém é atingido. O pior, esse alguém nunca sabe reagir, se assusta. É um pouco assustador, confesso. Entendi quando tive que me colocar no lugar da minha segunda “vítima” desse sentimento louco. Vou tentar explicar: parece estranho você defender alguém de tudo e de todos, mesmo sabendo que essa pessoa tem defeitos enormes, que a um olhar encantado se tornam insignificantes, não parece?

É meio surreal quando você não vê a hora de contar uma coisa tola que aconteceu com você, mesmo sabendo que a pessoa só te escuta porque quer ser gentil (e nem sempre é assim, mas no meu caso tive “sorte”), é completamente maluco você pedir mil vezes para pessoa ficar mais um pouquinho, só pra você ficar na presença dela e você nem se dá conta de que não importa só o que você sente, a pessoa também tem suas vontades e momentos. Nem sempre ela pode ou quer ficar, nem sempre ela quer andar com você ou ouvir suas histórias. E isso dói, e como dói! As pessoas não entendem como alguém pode sentir isso por um humano cheio de erros e dúvidas. Mas acontece. É inacreditável, mas acontece, sim!

Olha eu aqui, tentando involuntariamente me justificar. Eu preciso mesmo é me desculpar, queria que fosse pessoalmente, com os dois que foram atingidos. Mas seria ainda mais estranho. Sabe?


Sabe quando tudo o que você faz parece estranho, errado, exagerado? Não me lembro quando isso começou comigo, mas me parece muito antigo. Quando você não consegue administrar o que tem dentro de você (o que não cabe dentro de você). Sempre fui louca, ou sempre me chamaram assim. É como se eu fosse realmente diferente. Tentei por várias vezes achar explicação, me controlar, me colocar no lugar de quem me vê – mas não me enxerga -, quis entender. E demorou… Poxa! Como demorou. Foi preciso alguém que quase me conheceu completamente, me mostrar como eu sou, a tal segunda vítima. Mas me mostrou de uma forma equivocada, onde mais uma vez, me fez parecer louca.

Parece que tudo que eu sempre fiz foi ser louca. “Você é louca!” “Para! Você está fora de si.” “Isso não é coisa de gente normal.” “Enxergue-se e tente entender. Você está fora de si.”

Isso me machucava tanto… Porque eu nunca me arrependi de nada e apesar de me sentir culpada por assustar as pessoas com o meu modo de agir, eu não sabia como demonstrar de outra forma. Hoje eu sei que foi ruim, eu sei que foi demais, sei que não posso deixar isso se repetir. Mas sei também, que não posso ser a única a ser assim.

Está certo que as loucuras das outras pessoas são mais “aceitáveis”, mas deve haver alguém que consiga receber esse turbilhão de sentimentos. E se não existir, vou fazer como sempre fiz. Vou ter que me acostumar a ser a louca.

Incrível, pareço tão pequena perto dessas palavras, é aterrorizante ser vilã de algo que fora de mim é bom. Não posso mudar totalmente, mas prometo tentar. Prometo por você, que sabe que foi a minha vítima. Prometo porque além de tudo, você foi a melhor pessoa que eu conheci. Prometo porque não quero dar a outra pessoa o que você despertou. Prometo porque você merece que eu mude, que eu seja um pouco menos intensa. E mesmo que nossa história tenha se encerrado, prometo que vou lembrar de você e te usar como exemplo a cada vez que eu melhorar minha postura, a cada vez que eu tratar alguém com educação. Você me ensinou tanta coisa…

E como eu retribui? Repetindo o mesmo erro dos 16 anos. Se bem que eu não considero um erro. Considero que você também não soube reagir ao amor, uma pena. Porque o meu foi todo seu e agora vou recolher e educar. Educar para que ele não atinja outro que não saiba reagir. Educar para fazer desse amor algo bom, algo que valha a pena lutar.

E lá na frente, você vai olhar e perceber que eu não sou a única errada, você tem sua parcelar de culpa. E que além de não saber receber amor, nunca vai saber amar alguém de verdade. Pois sempre precisa de mais alguém para distribuir o que você deveria dar a apenas uma pessoa. Infelizmente, o seu modo de administrar é mais simples que o meu. Você divide, eu quero que seja só de um. Você separa e esconde, eu misturo tudo e transbordo!

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Direitos autorais da imagem de capa: IKO / 123RF Imagens

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