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Eu não sou mais quem você deixou, amor

eu não sou mais quem você

Uso menos preto nos dias quentes. Era masoquismo, eu sei, me torturar com o luto e com o calor, os dois ao mesmo tempo, somando uma sensação desagradável ao meu corpo, como se eu infringisse a ele a obrigação de penar. Dos fantasmas que passam pela nossa vida, os piores são sempre os imaginários, são sempre os que a gente mesmo cria para representar as pessoas que já foram embora, pra assombrar a gente dia e noite, sem necessidade do original aqui.



Nossos fantasmas são torturadores e exigem da gente resistência, ainda que seja do nosso controle a existência deles. Não são fantasmas de verdade, são sombras que a gente deixa ali por vontade própria – ou de forma involuntária mesmo, é tudo produto do subconsciente. Foi por isso que eu comprei um abajur novo e coloquei no canto menos iluminado da sala. Botei uns quadros impressionistas também de frente pra cama, pra me importar menos com os porta-retratos vazios e mais com a curiosidade das peças novas.

Quando uma dor de amor passa, algumas coisas passam juntas e outras ficam. O que fica é sempre uma mistura pomposa de ressalvas, cuidados pras próximas vezes e dores de cabeça que batem do nada quando a gente menos espera. A memória afetiva, tão desgastada e utilizada, pede um pouco de descanso e hesita a qualquer sinal de que iremos usá-la novamente. Então é bem normal que eu esteja anestesiado, como se tivesse ficado enfermo nos últimos meses e pedido um pouco mais de morfina nas veias.

Acabou a medicação e eu mudei umas coisas. Não que você tenha reparado, é claro, porque você não tava aqui pra ver.


Mas no momento exato em que eu me recuperei de você e larguei as muletas, eu não era mais (m)eu. Eu tinha uma nova altura e um novo peso. Uma nova forma de me enxergar no espelho. Acho que até a minha voz mudou um pouco e talvez eu tenha deixado o cabelo e a barba crescerem, mas isso é o de menos. Eu não me reconhecia mais, tinha entrado num casulo e saído outra coisa. Meus costumes mudaram um pouco – sempre mudam, principalmente quando a gente se acostuma a ter uma vida a dois, a gente acaba roubando um pouco do outro e não faz mais sentido mantê-los quando ele vai embora. Parei de mascar chiclete e voltar em casa pra conferir se tinha fechado mesmo a porta. Até deixei o carro na garagem e passei a andar mais de metrô. Não fico mais irritado com o trânsito parado dessa cidade.

Demorei pra me acostumar, mas finalmente saí pra passear com o cachorro de noite e dei uma caminhada no parque. Você nunca tinha tempo e eu achava que também não tinha. Eu voltei a cozinhar e aprendi um pouco das cozinhas ao redor do mundo. Teria sido um prazer te servir algum prato se você parasse em casa, mas sem ressentimentos. Isso não é uma carta de superação ou um boletim informativo de como anda a minha vida. É que na sexta passada eu encontrei uma amiga sua – a mesma que me disse que você tava indo morar fora do país e que queria saber como eu estava. Ela, numa dessas frases com função fática, exclamou que eu não tinha mudado nada, que continuava o mesmo.

Engano o dela. Porque eu não sou mais quem você deixou, amor. Ninguém é o mesmo. Nunca mais.

 


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Escrito por Daniel Bovolento – Via Entre Todas as Coisas

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