Eu sou responsável também pelo que os outros entendem, não apenas pelo que eu falo

Atire a primeira aspas quem nunca ouviu (isso inclui a própria voz) a exclamativa “Eu sou responsável pelo que falo, não pelo que os outros entendem”.

Essa frase é muito interessante e parcialmente correta. Interessante, pois reflete um comportamento pós-moderno cada vez mais comum e em franca expansão: o egoísmo social. Nele, buscamos terceirizar os problemas e reduzir as relações a uma porta com olho mágico. Sabe aquelas de apartamento? Eu nem preciso abrir para saber quem está do outro lado, basta olhar pela lente. Assim, eu permaneço dentro no meu mundo onde posso ser eu mesmo sem interferência dos outros, embora isso custe o isolamento e o distanciamento.

Voltando à frase tema deste artigo, há também uma parte bastante responsável que é quando eu me responsabilizo pelo que falo. Isso é muito legal, pois quando assumo isso me torno não apenas veículo do conteúdo que sai da boca, mas também autor e tutor do conteúdo, do tom de voz, da intenção, dos significados e nessa toada não tem como fugir da responsabilidade de como essa mensagem chega até o outro e ainda, dos efeitos que causa.

Logo, torno-me também responsável, inevitavelmente, pelo que o outro entende. Esse é o carma da comunicação.

Se não fosse assim, as mães não precisariam repetir – incansavelmente – em vários tons e sotaques as mesmas orientações aos filhos, é bem verdade que algumas dessas orientações vinham em formato de palestra ou repente, e gotejavam até que a gente acabava entendendo. E como isso acontecia? Quando a gente dava o feedback de que a mensagem tinha causado o efeito esperado, caso contrário já esperávamos por um “eu não falei?”. As mães já sabiam que a responsabilidade não era parcial e limitada.

Professores também são escolados na arte de contrariar esse senso comum. Não basta explicar a teoria é preciso, também, fazer o aluno entender e para isso vale mudar jeito, trocar as palavras, desenhar, fazer mímica, enfim. O importante já não é mais quem fala, mas quem ouve.

Ser responsável somente pelo que se fala é um ato de covardia e omissão da própria responsabilidade. É uma meia verdade.

Claro que somos também responsáveis por tudo o que o outro entende (ou não) do que falamos, se não fosse assim ninguém ficaria em silêncio depois de dizer “eu te amo”. O que nos falta é empatia de olhar para o outro como a mãe olha para o filho e sabe que ele não irá entender da primeira vez e por isso terá que repetir quantas vezes forem necessárias.

A mesma empatia que o professor tem para com os alunos em aceitar que cada um é diferente e que por isso será preciso explicar de várias maneiras para que o que ele está falando faça sentido.

O que nos falta é parar para ver o outro pelo olho mágico e abrir a porta.


Direitos autorais da imagem de capa: wallhere / 1253623



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