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Ex-doméstica que estudou até a 4ª série, volta à sala de aula aos 50 e vira advogada: “Não desistiu”

Foto: Facebook
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A advogada Márcia Negrisoli ficou impressionada com a comoção que a conquista de Marina teve na solenidade de entregas de carteiras, e bateu um papo com ela para conhecer história.

A organização Todos Pela Educação fez um levantamento em 2021 que aponta um aumento no número de crianças e adolescentes em idade escolar fora das salas de aula. De acordo com os dados, cerca de 244 mil crianças entre seis e 14 anos estavam fora das escolas no ano passado, uma taxa que mostra um aumento de 171,1% na evasão escolar em relação à 2019.

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que mede a qualidade do ensino, afirma que dos 10,3 milhões de jovens entre 15 e 17 anos que deveriam estar na escola, 2,8 milhões acabam sendo vítimas da evasão escolar. Entre as principais causas do abandono escolar estão: acesso limitado, deficiências físicas, gravidez e maternidade, pobreza e desigualdade social, trabalho infantil, entre outros fatores.

Para Marina dos Santos, de 64 anos, a evasão escolar acabou sendo consequência da situação de vulnerabilidade social que vivia com a mãe, sendo necessário deixar os estudos para ajudar nas despesas da casa. A ex-doméstica deixou todos emocionados durante a solenidade de entregas de carteiras da Ordem dos Advogados (OAB-SP), sendo mais um exemplo de que o estudo sempre rende frutos, independente de qual idade o indivíduo tenha.

Quem apurou a história de Marina dos Santos foi a também advogada Márcia Negrisoli, que ficou impressionada com a comoção geral que a história da colega de profissão foi capaz de causar na cerimônia. Segundo publicação que fez posteriormente no Facebook, muito interessada na história, Márcia recebeu-a para uma conversa, interessada em saber como chegou até ali.

Com a permissão da mais nova advogada de São Paulo, Marina contou que o pai faleceu quando tinha apenas sete anos de idade, e que passou a ser criada apenas pela mãe, algo muito comum na sociedade brasileira. A matriarca, que trabalhava como empregada doméstica, era a única fonte de renda da casa, e a família passou por severas dificuldades.

Ainda na adolescência, Marina precisou começar a trabalhar também como empregada doméstica para ajudar a pagar as contas da casa, e os estudos, que já tinham sido abandonados quando estava apenas na 4ª série, se tornaram um sonho ainda mais distante. Ainda adolescente, acabou se casando e se tornando mãe, dando início a outro momento de sua vida, sem imaginar se conseguiria, um dia, estudar.

Depois de criar os dois filhos, se tornou avó, e pouco antes de completar 50 anos, decidiu retomar os estudos de onde tinha parado. Com muita disposição, Marina concluiu o ensino fundamental e o ensino médio, e conseguiu todo o apoio do marido e da família para continuar frequentando as salas de aula.

Marina entrou na faculdade de Direito e aos 64 anos passou no Exame da OAB, recebendo oficialmente sua carteira de advogada. “Isso é luta, é representatividade, é a garra de uma mulher negra que não desistiu de seus sonhos”, escreveu Márcia em sua publicação, que ainda revelou que se emocionou ao vê-la receber a carteira, além de se sentir privilegiada em conhecer sua história.

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Direitos autorais: reprodução Facebook/ Márcia Negrisoli

“Marina, digo, Drª. Marina, é inspiração pura! Que privilégio ter participado um pouquinho dessa linda jornada. Por mais Drªs Marinas nesse nosso país”, finalizou Márcia, buscando enaltecer o impacto que a mais nova advogada teve em sua vida e na de vários outros à sua volta. Nos comentários, muitas pessoas (da mesma profissão e de outras) parabenizaram a profissional, compartilhando sua história e reforçando que, com apoio, podemos retomar os estudos em qualquer idade.