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“Exala um cheiro típico”: estudante da UFRGS acusa doutorando por racismo. Polícia investiga

A Polícia Civil do Rio Grande do Sul instaurou um inquérito para apurar um suposto caso de racismo denunciado por um estudante da Universidade Federal do estado (UFRGS), após um doutorando em Filosofia da mesma instituição enviar à sua namorada mensagens ofensivas a seu respeito.



Nelas, às quais o GLOBO teve acesso, Álvaro Hauschild afirma que o negro “exala um cheiro típico”, “tem um cérebro programado para fazer o máximo de filhos que puder” e que “pode não ser um problema lá onde a natureza dá cabo deles”.

As mensagens foram enviadas na última quarta-feira para Amanda Klimick, namorada do estudante de Políticas Públicas Jota Júnior, de 23 anos, que registrou ocorrência no dia seguinte na Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância da capital gaúcha. O casal achou no início que se tratava de um flerte até que a conversa começou a ficar mais ofensiva.

Hauschild abordou Amanda pelo Instagram escrevendo apenas “que vergonha”. Ao ser questionado sobre o comentário, disse que ela deveria arrumar outro namorado “Não sei se tem alguma coisa que salva ali”, disse.


Direitos autorais: reprodução Instagram.

“Já pensou como serão teus filhos?”

Amanda perguntou se tinha a ver com a posição política de Júnior. O estudante já foi alvo de críticas por ser liberal e estudar em uma universidade pública. Hauschild respondeu que era “tudo, inclusive o ativismo”. Na sequência, o doutorando sugere que o casal não combina e afirma que a jovem estaria fazendo “caridade”.

“Mulher, te olha no espelho. Tu é bonita, parece que de família… Tu merece algo à tua altura”, escreveu Hauschild. “E tu já pensou como serão teus filhos? Que eles sejam diferentes de ti? Tu tem ombros fortes. É descendente de vikings, com certeza. Talvez de guerreiras vikings também”, acrescentou.


“Quando as pessoas dizem que vocês são ‘iguais’ elas no fundo sabem que não são e estão tentando esconder a vergonha que tu passa com esse energúmeno.” Amanda mostrou as mensagens a seu namorado, que não acreditou se tratar de críticas políticas. O casal então resolveu continuar a conversa.

Direitos autorais: reprodução.

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“Lido com a questão racial há alguns anos e percebi que quem usa esses tipos de expressões geralmente são pessoas nazistas. Eu disse: ‘Amor, acho que isso aqui não tem nada de crítica política. É racismo.’ A partir dali, criamos um ambiente para que ele se sentisse seguro, de forma que a Amanda forjasse que realmente estava interessada no flerte e naquilo que ele tinha a dizer.

“Foi aí que o racismo realmente descamba. Minha intenção nunca foi ter um material suficiente para alegar injúria racial. Queria criar um ambiente para mostrar que ele é de fato racista”, disse Júnior ao GLOBO.


“Genes purificados”

O doutorando começa a falar de genética e poder do sangue da Prússia. “Pensa nos teus filhos. Tu quer que sejam bonitos, harmônicos de corpo e alma como tu?”, indaga. Hauschild diz que o povo europeu precisou ser guerreiro e se defender dos invasores para se purificar e compara a genes de negros.

“Eles, no habitat natural e sem mistura, talvez não possa ser considerado negativo. Eles conseguem harmonizar bem na savana”, disse. “O negro pode não ser um problema lá onde a natureza dá cabo deles, mas nas sociedades desenvolvidas ele se torna um problema sério”. E conclui: “O negro tem um cérebro programado para fazer o máximo de filhos que puder.”

Na conversa, Hauschild também argumenta que em razão dos genes de negros serem dominantes, seu código genético prevaleceria. Diz também que “na troca de fluidos existe troca genética”.


“Pensa que assim como no gene o negro é dominante, ele também exala um cheiro típico, libera substâncias no ambiente e na troca com parceiros”, disse. “Tu vai ter um filho bonito e inteligente, cabelo liso e cor clara na pele, no cabelo e nos olhos, apenas se se relacionar com alguém parecido. Sendo totalmente branco europeu é válido. Mas talvez tu encontre algum prussiano por aí”, finalizou.

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“O que de fato nos assustou foi que aquele indivíduo tinha consciência da sua ignorância. Ele estava nitidamente reproduzindo um discurso pensado, estudado e que haveria ali uma materialidade de cunho social e político muito forte por trás daquele discurso. Geralmente, é macaco, preto, palavras mais comuns. Aquele racismo burro. Parecia que ele estava tentando doutrinar a Amanda”, disse Júnior.

Procurado, Hauschild afirmou que não é “racista nem criminoso, nem nazista nem nada do tipo”. “Estão incorrendo em grave erro aqueles que tentam fazer crer entre o povo que eu sou alguma dessas coisas”, disse o doutorando por mensagem. “Estou convicto de não ser racista e de não ter tido intenções racistas no meu discurso.”

Racismo x calúnia

Júnior e Amanda já prestaram depoimento à polícia. Hauschild é aguardado ainda esta semana. Ele também registrou uma ocorrência por calúnia.


Segundo a delegada Andrea Mattos, responsável pelo caso, o inquérito foi aberto com base no artigo 20 da Lei de Racismo, que dispõe que “praticar, induzir ou incitar, pelos meios de comunicação social ou por publicação de qualquer natureza, a discriminação ou preconceito de raça, por religião, etnia ou procedência nacional”. A pena é de reclusão de um a três anos e multa.

“A princípio, está bem clara a materialidade. Mas é sempre importante ouvir as duas partes. A gente precisa terminar o inquérito para ter certeza do fato, mas a princípio foi, sim, racismo. A conversa é extensa, em diversos momentos ele tem falas racistas”, afirma a delegada.

O advogado de Júnior, Marçal Carvalho, afirmou que ingressará com uma representação perante o Ministério Público e que cobrará um posicionamento mais efetivo da universidade.

Em nota, o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS disse que todas as denúncias recebidas pela direção como essas são analisadas e encaminhadas nos termos do Código Disciplinar Discente da universidade. O IFCH afirmou ainda que “repudia todas e quaisquer manifestações preconceituosas e discriminatórias, que afrontam os Direitos Humanos e os preceitos da igualdade humana fundamental”.

“O preconceito e a discriminação, em todas as suas formas, são também frontalmente contrários às atividades de pesquisa, ensino e extensão desenvolvidas pelo IFCH ao longo de seus 50 anos, bem como aos valores partilhados pela comunidade de docentes, discentes e técnicos desse Instituto”, disse a UFRGS na nota.

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