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Falta também é presença, e ocupa um espaço enorme dentro da gente

A gente precisa aprender a viver sem exigir demais, sem criar muitas expectativas, sem buscar na insatisfação algo que preencha nossa vida e aumente nossos vazios.


Caio Fernando Abreu me fascina. De tempos em tempos, uma frase, uma crônica, um lamento seu me alcança e me abraça. Planejando nossa próxima viagem para Paris, chega-me “Existe sempre uma coisa ausente”, seu texto sobre a Cidade-Luz, e a frase que ele próprio assinala como a síntese de todos os textos que já escreveu. É ele quem diz:

Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem, guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.

Caio Fernando tem razão, alguma coisa sempre nos falta. Em alguns momentos, mais do que em outros, sempre haverá alguma coisa ausente, alguma coisa incompleta, algo sem encaixe, algo que poderia ter sido e não foi, algo que se almeja, algo de que se sente falta, algo que é mais bonito porque não se concretizou, algo que dá saudade, algo com que se sonha, algo que encanta porque falta, alguma coisa de que a gente tem noção de que é só ilusão do nosso coração.


Falta também é presença

Sim, falta também é presença, e ocupa um espaço enorme dentro da gente. Em nossa vida não vividas somos sempre muito mais felizes e realizados que na vida experimentada, palpável e possível, pois projetamos demais. Lá naquele lugar onde imaginamos que seríamos para sempre felizes, só ouviremos o que queremos ouvir, só viveremos o que nos trará algum alívio, só encontraremos pessoas “perfeitas” que correspondem exatamente àquilo que consideramos perfeito.

É preciso parar de projetar e começar a viver. Viver com a possibilidade, com os erros, com a imperfeição. Viver com a falta. E conviver com a falta, com o buraco interior que de vez em quando aumenta, de vez em quando diminui, e algumas vezes desaparece.

A gente exige demais da vida. Projeta demais, espera demais, cria expectativas demais. Mas a vida é imperfeita. As pessoas são imperfeitas. A realidade é imperfeita. E isso tem que bastar.


Isso tem que ser suficiente pois, do contrário, viveremos sempre de buscas e nunca seremos gratos por completar a travessia.

O encantamento que surge da paixão é uma projeção, uma projeção deliciosa, que nos faz acreditar que o outro é exatamente aquilo que sempre procuramos e que ao lado dele teremos tudo com o que sempre sonhamos. A dor pela perda de alguém por quem nos apaixonamos é a dor pela perda daquilo que queríamos ter vivido e do que imaginamos ter perdido: nossas ilusões, nossos sonhos, nosso encantamento, nossa vida que, na nossa projeção, seria perfeita.

Algumas faltas, silêncios e ausências fazem mais barulho dentro da gente do que aquilo que é vivido, resolvido e experimentado. O que não se tem – e que justamente por isso imaginamos com perfeição – ganha mais notoriedade que aquilo que conquistamos e experimentamos.

Sem exigir e esperar demais

A gente precisa aprender a viver sem exigir demais, sem criar muitas expectativas, sem buscar na insatisfação algo que preencha nossa vida e aumente nossos vazios. A simples possibilidade de nos encantar, não exigindo nada além do encantamento, do brilho no olhar e do coração aos pulos, deveria nos bastar. Pois isso, por si só, já é tão bonito, tão poderoso e nos faz tão verdadeiramente humanos, que já deveria valer e contar. Sem expectativas. Sem exigências. Sem projeções.

Que permaneçam as coisas boas que foram possíveis extrair da vida e do amor, que a lembrança das borboletas no estômago e do brilho no olhar aqueçam nossas noites de saudade e lembrem-nos de que, mesmo não durando, algumas histórias jamais serão esquecidas ou terão sido em vão. E que essas lembranças nos ajudem a ir mais longe e a cuidar mais de nós mesmos, levando-nos a entender que tudo valeu, mesmo aquilo que não permaneceu.

 

Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: 123RF Imagens.





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