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A felicidade de simplesmente estar vivo…

Histórias de uma sala de espera…

Outro dia conheci uma moça num consultório médico. Era jovem e muito bonita. Os cabelos cacheados emoldurando o rosto forte. Os olhos grandes e amendoados. Ela lia uma revista de moda dessas de sala de espera. Essas revistas que parecem ser feitas sob medida para salas de espera, revistas que a gente folheia sem ler uma palavra, que a gente vê as imagens sem enxergar nada.


É que numa sala de espera sempre tem gente nervosa com alguma coisa, gente ansiosa com o resultado do exame, gente aflita com a dor, com a manchinha que apareceu, gente assustada e gente apavorada. Sala de espera não é lugar para ler revista e sair querendo copiar o vestido para o casamento da prima. Sala de espera é lugar de sentar e pensar na brevidade da vida, na proximidade do fim, na possibilidade de adoecer, na fragilidade de existir.

Sala de espera tem esse nome porque a gente quer a qualquer custo que a esperança se sente com a gente lá e fique esperando a resposta do médico.

E a gente quer que ele diga que está tudo certo, mas tem dores de barriga de medo que ele diga que tem algo errado no exame.

Aquela moça estava assim. Quando olhei para ela, retribuiu com um sorriso tímido e segurou a bolsa ainda mais próxima ao corpo. Em sala de espera de consultório médico sempre tem alguém que puxa assunto. É porque no meio do nervosismo tem gente que solta as palavras sem freio algum e tem gente que mal consegue soletrar o próprio nome.


Eu estava lá, vendo tudo isso porque minha vida não estava em risco naquele dia, naquele consultório médico. Lá eram atendidas várias especialidades e eu apenas esperava que o dermatologista me dissesse como acabar com as espinhas que teimavam em manter a adolescência viva em mim.

Não era nada urgente e nem nada que me fizesse perder o sono. A consulta já estava marcada há tantos meses que se a secretária não me ligasse para relembrar e confirmar, eu, certamente, ter-me-ia esquecido de ir.


Então, estando fora do olho do furacão, tratei eu de puxar assunto. “Veio ver médico de quê?”. Ela titubeou, abaixou a cabeça, fechou os olhos e suspirou fundo, muito fundo, soltando todo o ar que haveria de caber dentro dos pulmões. “Médico de vida ou morte! E você?”. Não entendi nada e disse, com o rosto em expressão de espanto, que estava lá para me consultar com o dermatologista. “Droga de espinhas!”. Ela sorriu, disse que também teve espinhas quando era adolescente, mas que conhecia um creme muito bom, que poderia me indicar. Disse que a tia da vizinha fazia uma limpeza de pele que tira cravo e faz brotar rosa de tão macio que fica o rosto. Mas não saía da minha cabeça que ela estava indo ver o médico de vida ou morte. Ela falava, falava e eu só fingia escutar, balançando a cabeça vez ou outra. Enquanto isso olhava para ela, examinando seu corpo para encontrar algum resquício de cateter, alguma marca de agulha, alguma cola resistente de esparadrapo. Nada! Fiquei num constrangimento só de retomar o assunto de vida ou morte. Ela se deliciava contando sua saga com as consequências da adolescência, não parava de falar sobre como é o jeito certo de espremer uma espinha e como a parente da melhor amiga dela teve uma infecção terrível depois de espremer uma espinha do queixo sem lavar as mãos antes. Eu ia acompanhando cada fala dela, cada movimento e fui notando que falar sobre alguma coisa que fugisse daquela batalha entre vida e morte a fazia voltar a ser ela, sem as mãos trêmulas, sem o olhar assustado, sem o sorriso tímido.

A sala de espera se tornou mesinha de alguma cafeteria charmosa. Conversávamos coisas banais enquanto folheávamos revistas de moda. A vida era boa!

A secretária se aproximou e disse que era a vez dela. Ela suspirou fundo de novo. “Puxa, já tinha me esquecido que estávamos na sala de espera do médico!”. Eu concordei. A secretária sorriu. Ela me abraçou, então! Um abraço cheio, apertado, meio trêmulo, de mãos frias. “Boa sorte com as espinhas!”. Eu não sabia o que dizer, mas deixei a boca se mexer e a garganta vibrar e saiu um: “Que seja médico de vida, tá?”. Ela abriu um sorriso sincero e os olhos marejaram. E foi andando rumo ao seu destino. Entrou na sala do oncologista.

Minha consulta foi rápida, um creme antes de dormir, outro ao acordar e um bom protetor solar antes de sair de casa. Cuidado com o sol. Cuidado com a alimentação. Receita na mão e saí. Já nem me importavam mais as espinhas. Elas nem apareciam tanto assim… só conseguia pensar naquela moça e na consulta dela. Nem sabia seu nome, nem nada. Foi só aquela vez, foi só aquela sala de espera e mais nada. Ela poderia nem estar viva no meu retorno com o dermatologista. Foi aí que entendi que a sala de espera não era lugar ruim, não. Era o momento em que a gente se sentia mais humano em toda a vida, porque tudo o que é humano morre um dia. E que naquelas de esperar para saber se vai ter amanhã, se vai ter viagem no ano que vem, se vai ter preparação para as festividades de fim de ano, tudo o que é humano se une na felicidade de simplesmente estar vivo!

Aí me lembrei de uma menininha que era para ser minha aluna, mas foi minha professora. Uma menina atenta de cabelos cacheados, de olhos amendoados. Uma menina que gostava de poesia e que perguntava sempre quem tinha ilustrado os livrinhos de história que a gente lia. E me lembrei de uma vez que perguntei para as crianças o que achavam que significava esperança. E me lembrei da resposta da menininha: “esperança é o lado que faz a gente sobreviver”.

Ela tinha só uns 5 ou 6 anos e sabia muito mais de viver do que eu. Tinha muita esperança naquela sala de espera.

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Direitos autorais da imagem de capa: sergiophoto / 123RF Imagens





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