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“Ficamos com as crianças até as 3h da manhã”: funcionária de escola em Petrópolis conta como acalmou os alunos

funcionaria de escola em Petropolis conta como acalmou os alunos

Muitas famílias e estabelecimentos precisaram encontrar maneiras de ficarem a salvos durante as chuvas que destruíram boa parte da cidade de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, nesta semana.

Esse foi o caso da escola Centro educacional Monteiro Lobato (CEMO). Vendo que a chuva estava ficando mais intensa, Carla Quadrelli, mantenedora da instituição e mãe de Brenda e Bryan, logo começou a pensar em estratégias para manter as crianças a salvo, mesmo depois do horário das aulas.

Como relatado por ela em uma entrevista, a chuva começou por volta das 16h da tarde. Foi questão de tempo até Carla notar que algo estava estranho. “Percebi que algo estava errado quando o pátio não dava vazão da água dos telhados”, relembrou ela.

Logo as mensagens dos pais dos alunos começaram a aparecer nos grupos de WhatsApp. “Quando começou a chuva e o temporal realmente se tornou fora de controle, os pais que trabalham no centro da cidade estavam vivenciando a mesma coisa que a gente, porque a escola também é no centro. Então esses pais começaram a mandar mensagens nos grupos”, conta. Os canais de conversa, que facilitaram o bate-papo no momento da chuva, nasceram, na verdade, por conta da pandemia. Para passar informações para os pais durante as aulas online, a escola preferiu se organizar com chats no aplicativo.

Depois que as aulas voltaram, eles decidiram manter os grupos, como uma agenda virtual e meio de comunicação direta com os pais.

Foi por ali que Carla conversou e tranquilizou todos os pais durante as horas em que as crianças ficaram presas na escola devido o temporal. “Assim que eu vi que as coisas tinham saído do controle, eu fiz um vídeo para os pais. Porque acabou a luz e os pais começaram a ficar muito nervosos. Então eu fiz um vídeo explicando que as crianças estavam bem, que todos estavam no segundo e terceiro andar da instituição. Que estavam todos seguros”.

Os funcionários agiram rápido para conseguir deixar as crianças em um ponto mais tranquilo. Isso porque, como relatado pela mantenedora, essa não foi a primeira vez que passaram por algo parecido. “Já passei por duas enchentes, uma até muito mais grave que essa”, contou Carla, ressaltando que a equipe da escola já estava unida e preparada para a situação.

Depois que as chuvas começaram e a cidade aos poucos foi mudando de configuração, todos perceberam que a situação não acabaria tão cedo.

Algumas crianças ficaram na instituição até às 3h30 da manhã. Um aluno, ainda, precisou dormir na escola e foi embora apenas no dia seguinte, as 7h. Durante esse período, a escola serviu janta, ceia e lanches e encontrou formas de distrair as crianças com jogos, massinhas de modelar, histórias e, até mesmo, vídeos no celular das professoras.

“Falamos que era tipo uma festa do pijama sem pijama, um acampamento”, explica ela. “Sempre quando tem algum tipo de incidente a regra é muito clara: não repassar para as crianças. As crianças maiores, nós deligamos os celulares, para que os pais não tivessem contato e dessem informações. Então as crianças não sabiam exatamente o que estavam acontecendo, só sabiam que o rio estava muito cheio, que os pais não poderiam passar naquele momento para pega-los, que a gente teria que esperar um pouquinho. Quando acabou a luz eu falei: ‘desligaram a luz para nós não termos um probleminha, não levar choque’. Então a gente foi contando histórias para as crianças o tempo todo”, contou ela, que confessou que tudo durou mais tempo que imaginavam.

A todo momento, sempre que conseguiam, os funcionários da escola enviavam vídeos e mensagens para os pais, para tranquiliza-los e mostrar que tudo estava bem lá dentro. Alguns pais chegaram um pouco mais cedo e precisaram ficar dentro da escola por um tempo também, para que a situação se amenizasse.

Fabiana Dias da Silva, mãe de Lucas, de 10 anos e Beatriz, de 17, que só conseguiu buscar o filho na escola as 21h da noite. Para os dois, o desafio veio mesmo quando saíram da instituição. “Passamos por pessoas mortas na rua e eu precisava ficar tapando o rosto dele para não ver. As pessoas gritaram que estava tendo arrastão. Ele ficou desesperado. Entrei em uma escola publica procurando abrigo ate meu irmão chegar e me levar pra casa”, relembrou ela.

Apesar do susto, todas as crianças da escola ficaram bem e, cada um em um momento, conseguiram voltar para a casa com os pais. “Todos foram entregues aos seus responsáveis e estão todas em casa, a salvo. Nós conseguimos abrigar 190 crianças no dia da chuva”, conta a mantenedora da escola. A previsão é que as aulas sejam retomadas a partir de segunda-feira.

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