Pessoas inspiradoras

Filha de pescador e dona de casa, ela usou o crochê para mudar de vida e hoje exporta peças para a Europa

Vanda transformou uma tradição de família em negócio e conseguiu ajudar muitos cearenses com a produção das peças de crochê.



A pandemia do novo coronavírus impactou diretamente a renda das famílias brasileiras, algumas mais, outras menos.

Desde março de 2020, quando foi anunciado publicamente que o país havia registrado o seu primeiro caso de covid-19, os cidadãos vêm lutando para tentar passar por este período sem se contaminar com o vírus e sem perder todo o dinheiro que ganham com o trabalho.

Em locais onde o turismo ou a alta circulação de pessoas é o que movimenta o lucro, como cidades litorâneas, inúmeras famílias se viram sem conseguir honrar seus compromissos financeiros mais elementares, como alimentação e higiene pessoal. A crocheteira Edivanda da Silva, de Jericoacoara, no Ceará, viu isso acontecer na sua região.


Durante quase seis meses, ela viu várias mulheres, que sobreviviam com a venda de crochê no litoral, ficar sem nenhuma fonte de renda, segundo reportagem do UOL Universa. Vanda, que também é presidente da Associação Crochê e Arte, decidiu se mobilizar para compensar a queda nos rendimentos, que chegou a reduzir-se cerca de 80% nos primeiros meses.

Vanda conta que ficou metade do ano passado sem vender nada, e que o cenário foi triste, mas não foi pior porque conseguiu reunir apoio de órgãos públicos e privados, que ajudaram as famílias com doações de cestas básicas e outros produtos.

O sonho da artesã é transformar o crochê em mais do que herança cultural, mas em um produto valorizado tanto aqui quanto fora do país.


Direitos autorais: reprodução Instagram/@jeri.wandacroche.

A artesã aprendeu cedo a mexer com as agulhas e linhas grossas, aos 7 anos, já fazia alguns produtos e explica que essa é uma tradição em sua família. Vanda descobriu os primeiros pontos com a mãe, mas explica que há alguns anos não existiam tantos produtos de crochê como agora, eram apenas pano de prato e toalha de mesa.

A família era humilde, o pai pescador e a mãe dona de casa, as seis irmãs precisavam dividir uma agulha de metal, e enquanto uma lavava a louça, a outra se ocupava da limpeza e a outra fazia as peças.


Quando fez 13 anos, passou a vender seus produtos na praia e, aos 17 anos, a confeccionar também peças de roupa para vender. Vanda conta que sua sorte mudou quando cruzou com Luiza Brunet, ex-modelo, que havia se hospedado em um luxuoso hotel da região.

A artesã havia apostado em um modelo diferente, e transformou uma toalha de mesa em saia. A famosa viu o trabalho exposto na frente do local e gostou muito. A partir de então, a crocheteira decidiu fazer o modelo, e é o que mais vende até hoje.

Direitos autorais: reprodução Instagram/@jeri.wandacroche.


Além de muito trabalho empenhado, a artesã emprega toda a sua criatividade, já que nenhuma peça que produz é copiada. Mas isso não significa que é reconhecida por sua arte, já que muitos clientes que usam o produto no exterior nem sequer sabem de onde a peça veio.

Como atende a diversos segmentos, muitos de seus produtos chegam a lugares que ela desconhece, mas a falta de reconhecimento não a impede de continuar lutando para conquistar seu merecido valor.

Em 2018, Vanda se uniu a outros 41 artesãos locais e fundou a Associação Crochê e Arte, que tem mais de 70 credenciados atualmente. O intuito da organização é prover o suporte adequado aos profissionais autônomos, fazendo com que empresas públicas e privadas promovam eventos, como exposições.


Foram justamente associações desse tipo que garantiram a inúmeras famílias da região não passar fome, já que não podiam trabalhar ou nem sequer tinham para quem recorrer.

Mas muitos receberam apoio financeiro e alimentício, o que os tem ajudado em um momento tão delicado, como o atual. Os artesãos vendem cerca de 60% do que vendiam antes da pandemia, o que mostra que o faturamento, que chegava a 15 mil por mês, caiu drasticamente.

O maior sonho de Vanda é criar uma sede para a associação para, quem sabe, transformá-la em feira para que todos os artesãos possam vender seus produtos de maneira digna, sem precisar passar o dia debaixo do sol, expondo peças na areia e sujando-as ao longo do dia. A artesã ainda espera que as pessoas vejam o crochê como arte, mas acredita, com veemência, que vai dar certo.


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