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Filho de vereador preso por tráfico com 720 kg de cocaína abre debate sobre jornalismo e privilégios sociais

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Nas redes sociais, um debate sobre como a mídia tradicional noticia casos de tráfico em que pessoas brancas da elite são suspeitas teve início.

No Brasil, de acordo com o artigo 33 da Lei 11.343/06, é crime “importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas”. Com uma pena que varia de cinco a 15 anos de reclusão, e pagamento de 500 a 1.500 reais de multa por dia.

No dia 21 deste mês, Ruan Arno Brockveld, de 24 anos, foi preso em Navegantes, no Litoral Norte de Santa Catarina, por guardar mais de 720 quilos de cocaína e 6,2 quilos de crack em um apartamento no Balneário de Piçarras. O tráfico foi descoberto através de uma operação da Polícia Militar de SC, segundo reportagem do G1, e imagens de câmeras de segurança auxiliaram na confirmação da carga dentro do apartamento do rapaz.

A polícia ainda relatou que ele recebia R$ 4 mil por mês para manter as drogas escondidas no local, além de tentar encontrar alguém que fizesse o frete para o Rio de Janeiro. Depois que o carro de Brockveld foi localizado com drogas, a PM afirmou que ele tentou retirar os entorpecentes do apartamento, mas a ação acabou sendo interceptada pelos oficiais.

No dia 23 de fevereiro, a Polícia Federal de SC confirmou que a prisão em flagrante de Brockveld foi convertida em preventiva, o que significa que ele será mantido preso até a conclusão do inquérito policial. A liberdade provisória só é considerada caso o juiz conceda um habeas corpus. O suspeito já possui passagem pela polícia, por realizar boca de urna no dia da eleição, como informado pelos agentes.

2 Filho de vereador preso por trafico com 720 kg de cocaina abre debate sobre jornalismo e privilegios sociais

Direitos autorais: reprodução Facebook/ Ruan Brockveld.

Ruan é filho do vereador e vice-presidente da Câmara de Penha, Maurício Brockveld (MDB), que não prestou nenhum esclarecimento à imprensa. O rapaz está no presídio de Itajaí, e a ação que localizou os mais de 720 quilos de cocaína e mais de 6 quilos de crack foi realizada em conjunto com a Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Ação policial

A PF informou que as autoridades receberam informações de que um homem, que morava em Navegantes, estaria guardando uma grande quantidade de drogas em seu apartamento. Os policiais trocaram informações e fizeram diligências na região apontada, conseguindo localizar o endereço de Ruan.

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Direitos autorais: reprodução Facebook/ Ruan Brockveld.

No dia 20 de fevereiro, ele usou um caminhão para transferir parte da droga para outro imóvel localizado no Balneário Piçarras, no mesmo Litoral de Santa Catarina. A PF entrou no imóvel e confirmou as suspeitas, encontrando as substâncias ilícitas. Essa primeira apreensão fez com que os oficiais fossem até a casa do suspeito, onde encontraram o restante da cocaína e do crack, totalizando a quantidade informada.

Debate sobre papel da imprensa

Nas redes sociais, um debate sobre como os veículos de imprensa noticiaram a questão acabou entrando em pauta. O fato de não o chamarem de “traficante”, como costumam fazer quando suspeitos negros e periféricos são presos, se atentando mais à trajetória que teve no karatê e ao pai que é vereador acabou inflando os ânimos de jornalistas e dos internautas.

Alguns portais que buscam apontar preconceitos e racismo estrutural apontaram com eficácia inúmeros momentos do jornalismo em que os profissionais da área condenaram suspeitos muito antes do julgamento, por conta da cor da pele. Mas quando os suspeitos são brancos, acabam agindo de maneira correta, presumindo a inocência – um direito fundamental, previsto na Constituição Federal Brasileira.

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Direitos autorais: reprodução Facebook/ Ruan Brockveld.

Na grande maioria das prisões de pessoas negras por suspeita de tráfico, os veículos usam adjetivos como “traficantes” e “bandidos”, mesmo que eles sequer tenham sido condenados judicialmente. Um dos principais pontos debatidos foi justamente a questão de que os profissionais da imprensa não podem agir como juízes, e têm o dever e a obrigação de apresentar todos os lados de uma narrativa, deixando ao público e aos órgãos competentes o trabalho de julgar.

Chamar uma pessoa suspeita de “assaltante”, “bandido” ou qualquer outro nome, pode acabar influenciando o olhar do público, condenando-a muito antes da própria Justiça analisar os fatos. O racismo estrutural mostra que os privilégios existem, inclusive dentro da própria imprensa, já que apenas 20% dos jornalistas são negros, segundo o Perfil Racial da Imprensa Brasileira de 2021. Isso se torna um problema a partir do momento em que mais da metade da população brasileira é negra.

O fato de Ruan Brockveld ter sido tratado como um ser humano, ter sido respeitado diante dos fatos, para que possa aguardar de maneira justa um julgamento, não está errado. Essa deve ser a forma adotada por todos os veículos, presumindo a inocência dos suspeitos até que a Justiça prove o contrário, se provar.

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