Comportamento

Filho negro manda carta para o pai: “Se eu fosse branco, você e toda a minha família iam gostar mais de mim?”

capa site Filho negro manda carta para pai Se eu fosse branco voce e toda a minha familia iam gostar mais de mim

Gustavo ficou surpreso quando viu a carta do filho em cima do travesseiro. O menino foi adotado ainda bebê e a família sempre fez questão de falar abertamente sobre racismo.

O nascimento de um filho marca o momento em que pais e mães colocam a vida de outra pessoa acima das próprias, tentando a todo custo ser um porto seguro, capazes de minimizar qualquer dor e sofrimento que ele possa ter. Só de imaginar que um dia ele possa se sentir inferior ou menos capaz por conta dos estereótipos sociais chega a revoltar.

O empresário Gustavo Bregunci usou seu perfil no Instagram para falar sobre o que tinha passado com o filho Guilherme, de 9 anos. O pai explica que recebeu uma carta do filho perguntando se a família gostaria mais dele se fosse branco. Ao G1, diz que sentiu o estômago embrulhar lendo a carta, além da impotência de não conseguir fazer com que ele tivesse essas lacunas preenchidas.

Gustavo e a esposa Karina Murta adotaram Guilherme quando ele tinha apenas 1,2 ano; o casal teve mais dois filhos, Henrique, hoje com 7 anos, e Felipe, 5. O pai conta que sempre manteve uma relação aberta com o filho mais velho, que tem muita facilidade em falar sobre as próprias emoções. Desde que as aulas presenciais retornaram, ele expôs à família o fato de ser o único negro da sala de aula.

Conforme Gustavo conta, sua família é completamente diferente da maioria, pois tem um filho adotivo, outro com autismo (Henrique) e o caçula Felipe com síndrome de Down, o que faz deles pessoas abertas ao diálogo e sempre tocam em questões, como o racismo estrutural e o capacitismo. O pai criou o hábito de conversar com Guilherme todas as noites, e já tinha abordado o racismo estrutural.

2 Filho negro manda carta para pai Se eu fosse branco voce e toda a minha familia iam gostar mais de mim

Direitos autorais: Reprodução Instagram/ @gustavobregunci.

Na semana passada, logo depois de uma conversa antes de Guilherme dormir, o pai explica que foi tomar banho, e quando saiu do banheiro, viu a carta em cima do travesseiro. O empresário leu o que estava escrito e foi ao quarto do filho, que já estava dormindo. Sabendo que a situação era urgente, ele deixou sua resposta com a esposa, que a entregou ao mais velho.

Guilherme disse ao pai que recebeu a resposta e estava emocionado com o que leu. Mesmo assim, o pai se pergunta sobre os estragos que a própria sociedade vem fazendo nas crianças, anulando emocionalmente uma pessoa tão nova e de maneira tão cruel, e atribui  a culpa ao racismo estrutural.

3 Filho negro manda carta para pai Se eu fosse branco voce e toda a minha familia iam gostar mais de mim

Direitos autorais: Reprodução Instagram/ @gustavobregunci.

O pai não ficou satisfeito depois que compartilhou a carta do filho em um grupo no aplicativo de mensagens e recebeu a resposta de que seria apenas “uma insegurança normal de qualquer criança”, e decidiu compartilhar nas redes sociais, onde recebeu uma visibilidade maior. Para Gustavo, o único e melhor caminho é o diálogo com os filhos, além de atentar para alguma mudança no comportamento deles.

A forma como Guilherme se sente, de acordo com o pai, não vem apenas de “colegas racistas”, para ele as outras crianças recebem na própria casa o modelo de que é perfeitamente aceitável criticar tudo aquilo que é considerado diferente ou desviante. Além de acolhedora, a sociedade precisa atentar ao que está ensinando às crianças.

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Na publicação, o pai compartilhou a carta do filho e sua resposta, além de uma legenda impactante sobre o que está acontecendo. Perguntando até quando a sociedade, de forma geral, vai continuar aniquilando crianças negras, ele defende que o “racismo machuca a alma, reduz o indivíduo”, além de ser “covarde e cruel”.

Chamando os outros pais para o centro do debate e da responsabilidade, ele reforça que são eles que devem orientar as crianças, aproveitando o tempo livre para deixar para o mundo uma geração melhor que a deles.

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